A voz dos silêncios…

São onze da noite, estou sentada – sozinha – numa mesa perdida e desfocada do centro comercial, que está praticamente vazio. Circulam pelos corredores os últimos resistentes do dia e os poucos ruídos que se ouvem vêm das lojas onde os respectivos donos já fazem as limpezas de final de dia para depois fecharem e regressarem a casa.

As lágrimas humedecem o meu rosto triste, abafado, amedrontado; não sabia o que havia de fazer e aproveitei a saída do Gonçalo – para um jantar entre amigos – e saí de casa. Vim até aqui, respirar um pouco de ar puro, tentar acalmar-me e descontrair uns segundos, para pelo menos tentar viver a vida com que sonhei, bastante diferente daquela que vivo. Só queria mesmo esquecer a realidade que estou a viver.

Desliguei o telemóvel, não quero que ele me contacte, não quero ter que ouvir a voz dele, não quero pensar nele, imaginar como ele é: preferia não saber da sua existência. Á minha frente fumega a única coisa que me apeteceu comer: um simples prato de sopa, meti duas colheres à boca, engolidas a seco sem sequer ter tempo de as saborear, por entre uma respiração sôfrega e acelerada. Queria muito acalmar-me, mas não consigo. Sinto-me triste e angustiada. Há um desespero e um pânico incontroláveis que me consomem, não consigo descansar, não me consigo sentir bem. Tenho medo que ele me descubra, que ele me encontre.

Tento disfarçar ao máximo o que sinto, não quero que me vejam assim, quero a todo o custo evitar que me abordem e que me façam perguntas às quais não quero responder. Tenho medo que alguém que ele conhece me reconheça e lhe vá contar alguma coisa, só queria desaparecer, fugir para um sítio qualquer, para bem longe dele.

Eu e o Gonçalo conhecemo-nos por mero acaso numa saída nocturna: fomos à mesma discoteca com o respectivo grupo de amigos, enquanto eu e a Clara dançávamos na pista de dança ao som de uma das músicas do momento, o Gonçalo: com o seu ar de galã dos olhos verdes e corpo excessivamente atlético, muito extrovertido e entusiasmado aproximou-se de mim e tentou cortejar-me e seduzir-me, demasiado sorridente e alegre.

Fiz por não ligar muito, continuei a dançar e a divertir-me e resisti às suas diversas investidas, estava nitidamente a armar-se em convencido. A noite foi longa e intensa, o Gonçalo continuou a tentar mais algumas vezes uma aproximação bem-sucedida: sentando-se na mesma mesa que eu, convidando-me para dançar e até pedindo-me o meu número de telemóvel; mas sem sucesso. Não lhe dei hipótese…

Mas alguns dias mais tarde, aquilo que parecia inevitável acabou mesmo por acontecer: eu e o Gonçalo acabamos mesmo por marcar um encontro, para um café e uma conversa. Ele parecia-me uma pessoa radicalmente diferente longe das noitadas: era simples, humilde, e muito menos extrovertido e rebelde. Gostei dele e posso afirmar que foi amor à primeira vista, houve um encanto mútuo e a partir desse momento nunca mais nos largamos.

A nossa inesperada amizade e cumplicidade, apanhou toda a gente de surpresa, as minhas amigas estavam estupefactas, principalmente porque, na discoteca eu não tinha engraçado com ele e elas diziam-me várias vezes que nunca na vida me imaginariam a ser amiga dele. Porque na realidade, nós eramos diferentes; apesar de termos algumas coisas em comum.

De simples amigos até namorados inseparáveis, foi um instante: meras semanas. Apesar das prováveis diferenças que nos separavam, eu gostava cada vez mais dele, de estar com ele, das surpresas que ele me fazia, de receber mensagens a toda a hora. Era a relação perfeita e de sonho. Já andávamos a planear as primeiras férias de Verão juntos e tudo.

Mas num ápice, tudo mudou. Numa tarde em que o Gonçalo iria estar ocupado: em aulas, fui tomar café com o Paulo. Um amigo de infância que, já não via há imenso tempo; foi uma tarde divertida, a recordar momentos do passado, a rir e a pôr a conversa em dia. Gostei mesmo muito de o reencontrar e de recordar velhos tempos. No entanto, quando me encontrei com o Gonçalo ao final do dia, ele praticamente não me falava e as poucas palavras que me dirigiu, foi com maus modos e má vontade. Ao principio fiquem sem perceber a sua atitude, até que… Ele me perguntou aonde é que eu tinha estado. Disse-lhe que tinha aproveitado a tarde para ir tomar café com um amigo e de seguida perguntou-me com a fúria a instalar-se na voz: “Quem é ele?”

Expliquei-lhe quem era o Paulo; mas de repente, o meu telemóvel acusou a recepção de uma mensagem escrita: peguei no telefone e vi que era uma mensagem dele a dizer que tinha gostado do reencontro e de ter notícias minhas. Que esperava poder falar comigo mais vezes. Fiquei contente e sorri e foi a partir desse momento que a atitude e o comportamento do Gonçalo para comigo se alterou por completo e para sempre: arrancou-me o telefone das mãos, leu a mensagem e sem me dar tempo de reagir, deu-me uma estalada.

– Mas que merda é esta, Carolina? Enquanto namoras comigo, andas a trair-me com outro? Não te admito, ouviste?

Assustada, com os olhos carregados de lágrimas perante a frieza, insensibilidade e agressividade do Gonçalo: a mudança abrupta da sua personalidade e completamente em pânico, disse-lhe que as coisas não eram bem assim como ele pensava. Expliquei-lhe que eu e o Paulo não tínhamos nada um com o outro, que eramos apenas amigos; ele mostrou-se desconfiado, parecia não querer acreditar plenamente em mim. Salientei ainda que há muito tempo que não o via, e que ele tinha pedido o meu contacto a uma amiga para poder marcar um café comigo.

Senti-o mais calmo, parecia ter aceitado a minha explicação; mas não durou muito tempo. Logo de seguida, quando menos esperava, começou aos berros dizendo que eu era namorada dele, que não tinha nada que me andar a encontrar com outros rapazes à revelia dele e muito menos a dar-lhes o meu número de telefone, para eles passarem o tempo todo a ligar e a mandar mensagens e que a partir daquele momento queria que eu lhe dissesse aonde ia, com quem ia e com quem falava pelo telemóvel.

Abri a boca para contestar; mas logo de seguida ele fulminou-me com o olhar e agarrou-me pelo braço com força e brusquidão, dizendo:

– Estamos entendidos?

Disse-lhe logo que sim e seguimos juntos para casa. Desde esse dia que a minha vida nunca mais foi a mesma, tenho vivido um autêntico inferno: vivo presa dentro de casa, privada da minha liberdade.

O Gonçalo não me deixa sair sozinha com ninguém: nem com as minhas amigas – que ele já conhece desde sempre – com receio que eu o traia com algum rapaz ou que conte a alguém mais do que aquilo que devia, também faz por controlar com quem falo: quer pessoalmente, quer pelo telefone. Ao final do dia, pega no meu telemóvel para averiguar as chamadas e mensagens que fiz.

Há meses que só vejo o sol pela janela ou com ele sempre ao meu lado a controlar-me, para onde quer que vá, já não sei o que é descontrair, ter vida própria ou liberdade. Ando sempre no encalço dele. Infelizmente, não posso nem devo contrariá-lo porque ele não é uma pessoa estável e na primeira oportunidade que tiver ou em que me apanhar agride-me: às vezes violentamente.

Não sei o que fazer mais da minha vida. Não aguento mais esta situação, agora é que dou valor às palavras da minha mãe: “Ele não é rapaz para ti. É uma espécie de lobo com pele de cordeiro”.

Levanto-me da mesa ainda a soluçar e só tenho tempo e espaço para me questionar sobre uma coisa:

Porquê?

PORAna Ribeiro
FONTEEscreviver
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