Voltei A Ser Emigrante…

Depois de alguns anos, voltei a ser emigrante. Voltei a deixar o meu país para seguir pela estrada fora. Sou obrigada a partir em busca de uma vida melhor, em busca dos sonhos que me são impedidos de concretizar. E tal como tu, deixo tudo para trás… Deixo a casa que me viu crescer, deixo os sítios que acumulei de lembranças, deixo as pessoas que mais queria por perto, deixo uma parte de mim que não quer partir. Deixo a alegria, deixo o amor, deixo tudo cá… Só levo o dissabor da despedida.

É triste, não é? Eu sei que é… Só nós sabemos como dói, só nós sabemos o quão doloroso é dar o último adeus, o último beijo, o último abraço. Ter de partir com uma tremenda vontade de ficar. Ter de ver o sofrimento no olhar da família e dos amigos que ficam para trás. É uma dor que só nós emigrantes conhecemos, é um aperto que esmaga o corpo, é uma aflição que sufoca a alma. Contudo, temos de permanecer firmes e aguentar todos os medos, todas as angústias e aquela nostalgia que nos gela o coração.

Uma nova vida me espera, a viagem é longa e o lugar é incerto. É uma grande mudança para a qual ninguém está preparado. Não é fácil estar longe, não é fácil ouvir uma nova língua, não é fácil estar num lugar onde nos sentimos diferentes. Ao nosso redor passam dezenas de pessoas, no entanto estamos sozinhos, sozinhos num país que não nos pertence.

Quando as saudades apertam não temos maneira de as matar, não temos para onde ir, não temos nada nem ninguém que nos aqueça o coração. Não temos aquele abraço reconfortante que só a avó sabe dar. Não temos os tios, não temos os primos, não temos os amigos… Falta-nos toda a gente. O nosso lugar na mesa, nos jantares de família, fica vazio, pois estamos ausentes.

É certo que a experiência não é nova, mas confesso que já não sabia o que era sentir o coração apertado na hora da despedida. Já não me lembrava dos abraços calorosos da família, que não nos querem soltar, das lágrimas quentes, que teimam em saltar dos olhos para escorregar no rosto. Já não sabia o que era sentir o nó na garganta e o desalento de dar último adeus.

A parte mais triste é sair pela porta e sentir um arrepio, olhar para dentro e ver que a casa está vazia coberta de uma imensa escuridão. Fecha-se a porta, ouve-se o barulho da fechadura e nada mais habita lá, além de sombras e de um silêncio horripilante. Com as malas na mão, saio sem olhar para trás. Dentro de mim, manifestam-se um milhão de sentimentos, o meu corpo treme, o coração palpita aceleradamente e os olhos enchem-se de lágrimas que não consigo conter.

Parto, somente acompanhada pelas lembranças e pelas saudades, na minha mente levo aqueles que amo, mas que ficam cá à espera do meu regresso. Vou embora com um labirinto de incertezas na cabeça, e no coração levo as saudades daqueles que ficam. Na hora da partida o corpo vai, mas o coração fica…