Voltarei para vos contar a minha história!

O que sou? Serei uma breve história que os meus filhos contaram aos meus netos? Serei recordado com amor? Serei a dor que os meus filhos terão quando se lembrarem de mim? Não consigo descobrir a resposta à pergunta que me faço constantemente nos últimos dias. Mas sei o porque da pergunta, deixei-me contar-vos uma história.

Era uma vez um jovem cuja mãe está a morrer aos poucos com uma doença que não têm cura. Aos poucos vê-a a deixar de reagir, vê-a a chorar com a dor de nos deixar e de se sentir um estorvo para a sua família. A família onde nasceu e a família que construiu. A estupenda mãe, filha e irmã que foi. Se ela soubesse o que nos custa também a nós vê-la nesse estado.

Antes de mais deixei-me contar-vos algo sou egoísta e tenho um amor enorme pela minha família, não trocaria a minha família por nada deste mundo. Sinto uma dor enorme por ver morrer talvez a única pessoa que alguma vez me compreendeu, uma dor que não sei se alguma vez vai passar. Tenho medo de um dia no futuro em que ela cá já não esteja olhe para trás e a relembre com as saudades que já tenho. As saudades da sua comida que por mais receitas que tenha dos pratos que me fazia nunca ficam iguais, talvez por faltar o ingrediente secreto do amor que ela ponha em tudo… Esse imenso amor de mãe que ela nos passou e que um dia espero conseguir passar aos meus filhos, poder-lhes contar as histórias que a avó deles me contava e a importância que ela teve na minha vida e que irá ter na deles mesmo já não estando connosco.

A magnifica pessoa que ela foi e que ainda é para a família. É a cola que torna uma peça preciosa útil, o que faríamos sem a cola quando uma jóia se parte? É assim que também me sinto… Sem forças, vendo que ninguém a vai conseguir substituir. Que terei de ser eu a dar o meu melhor para unir a família quando ela se estiver a afastar, a fazer chamadas a altas horas da madrugada para combinar jantares e épocas festivas. Terei de ser eu também a consolar o meu irmão que ainda não caiu na realidade de perder a mãe e que quando cair vai ser ainda pior a dor que irá sentir.

Terei de consolar o meu pai com o qual nunca falo de sentimentos, terei de o fazer encontrar alguém com pelo menos metade da mulher que a minha mãe foi para que ele. Espero que ele continue a viver a sua vida por mais duro que seja no inicio, claro que sei que nunca irá esquecer a minha mãe mas há vários tipos de amor… Terei de ser eu a consolar os meus avós que ainda acreditam num milagre, não consigo imaginar a dor de perder um filho… O que lhes direi? O que direi a mim mesmo quando esse dia chegar e o que farei esse dia? Será que irei conseguir dizer as palavras certas? Não me imagino a conseguir a acertar nas palavras, como conseguiria? Se nem agora consigo dizer à minha mãe o quanto a amo e a falta que irei sentir dela.

Ela já não fala, o tempo passa rápido, então porque me sinto cada vez mais uma criança? Uma criança que só precisava que alguém lhe dissesse que tudo ia correr pelo melhor. Que precisava do abraço e colo da mãe enquanto esta lhe sussurrava ao ouvido que ia estar sempre lá para quando ele precisasse dela. Que lhe amparava as quedas e que dizia que quando ele discutisse com a sua mulher que ela ia estar do lado dela e não dele, porque sabia que não precisa de me dar a razão para que eu a amasse. Lembro-me de todos os pormenores das conversas que tinha com ela, então porque já me começo a esquecer da sua voz? Como farei este luto terrível sem ninguém do meu lado?

Sim estou solteiro, não me sinto com forças para ir a festas e sorrir como se a minha vida fosse perfeita, não tenho forças para estar na faculdade porque quando lá estou só penso em estar em casa para aproveitar os últimos tempos. Estou a tentar arranjar uma forma de acabar esta minha reflexão e não sei como, não queria dizer adeus porque não é a minha vida que está a acabar. Fico por dizer um até logo, o até um dia eu que eu me tenha recomposto e talvez consiga seguir com a minha vida para a frente, aí sim voltarei para vos contar a minha história.