Voar sozinho!

Dei conta de quem eu tinha perdido quando ganhei o bilhete de ida, sem ter o de volta lá agrafado. Nesse momento, percebi que tivera nas minhas mãos a única pessoa que alguma vez me tinha conseguido fazer feliz.

Tomava-a por garantida. Pensava mesmo que ela seria sempre minha e que eu seria sempre dela. A sério que pensava que iria ser sempre assim. Mas não. E a prova disso foi o bilhete que me deixou.

Dentro do meu mundo, acreditava que poderia tê-la sempre a meu lado, pois jamais ela conseguiria viver sem mim. Que nunca iria ter alguém que a pudesse fazer feliz, como eu pensava que a fazia. Mas enganei-me. Mantinha-me agarrado a projecções de um futuro que sempre fora fictício. E ainda mais agora, que nem há futuro algum sequer. Andei demasiado tempo agarrado à ilusão de que tudo o que lhe dava, era o suficiente para nos mantermos juntos, até ao fim dos nossos dias.

Habituei-me a tê-la por perto. Habituei-me a poder mandar-lhe mensagens ou até ligar-lhe as vezes que me apetecia. E a receber sempre da parte dela uma resposta. Era receptiva comigo. Estava sempre disponível para estarmos juntos, para me ouvir e para me dar tudo o que eu queria. Era a pessoa ideal para eu ter a meu lado. Mas segundo ela, eu nunca estive num patamar que a pudesse igualar. E tem razão. Nunca fui homem para ela, pois caí no erro de pensar que seria. O mal de todos nós, é pensarmos que somos suficientemente bons, para quem ao nosso lado está. Desleixamo-nos e deixamos a coisa andar. Acabamos por perder o nervoso miudinho, o querer surpreender, a sensação de querer estar sempre à altura. Ficamo-nos pelo básico. E o básico, não é bom para se dar a alguém que sempre nos deu para além do seu limite. Que sempre dera muito. Que sempre dera mais e melhor. E sabes o que ela me deu no final? Aquele bilhete. Deixou-me um bilhete de despedida. Despediu-se de mim, dos meus sentimentos e de tudo o que vivemos um dia. Deixou-me sem sequer me ter preparado para tal despedida. Foi dura comigo, mas eu sempre fui frouxo com ela.

Está certo.

Nunca lhe dei o carinho que ela precisava de receber. Nunca lhe mandava coisas fofinhas. Nunca passeava com ela. Resumindo, nunca fiz nada que lhe mostrasse o quanto gostava dela. Lá está, tomava-a por garantida. Pensava que ela sabia que sempre a amei, que sempre a quis e que sempre a iria querer na minha vida. Mas afinal, nunca o soube.  Eu não desejava outras, porque ela era tudo o que as outras tinham de melhor, confinado numa única pessoa. Ela era a minha pessoa, a minha miúda. Era. «Era», porque agora já não é. Já não é a minha miúda, porque nunca lhe dei o que ela precisava mesmo. Apenas me preocupei com o que eu necessitava, ao longo do tempo em que estivemos juntos. Fui uma besta. Um triste. Um egoísta. E agora estou a pagar por isso.

Em cima da minha mesa da cozinha, deixou-me um recado escrito num guardanapo, a dizer que de hoje em diante, teria que voar sozinho. E por baixo disso, continuou dizendo que uma relação é construída a duas partes e não apenas por uma. E que como tal, esperava que eu fizesse uma boa viagem sozinho, porque ela de certeza que iria fazer, pois sempre viajara sem mim. Sempre lutara sem mim. Sempre vivera sem as demonstrações dos meus afectos… Disse-me ainda mais uma mão cheia de coisas naquele guardanapo. Fez-me constatar que afinal, existem guardanapos longos o suficiente para dizer a alguém que a relação haveria chegado ao fim. E viva aos guardanapos e à estupidez de um homem que nunca soube demonstrar, que ama a única mulher que alguma vez o conseguiu fazer feliz.

E graças a isso, terá que conseguir viajar sozinho. Terá que pegar no bilhete deixado por ela, e seguir em frente mas sempre com o pensamento na cabeça, que poderia ter-lhe dado o mundo. Mas que não lhe deu. Terá que seguir sozinho. Terei que seguir, sem ela a meu lado. Apenas serei eu, sozinho, a percorrer a viagem que é a vida.


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