Quando Viver Se Torna Doloroso.

É triste quando todas as manhãs o simples ato de erguer o corpo se torna doloroso e tens de travar uma luta contigo próprio dizendo que isso vai passar, que é só um mau dia. Sentes-te esgotado e sem forças, mas tens de pôr uma máscara e continuar a viver, porque “é só um mau dia”, como toda a gente te diz.

No entanto não é só um mau dia, pois a cada dia a dor que sentes só aumenta, a cada manhã o teu corpo torna-se mais pesado e levantar da cama todas as manhãs torna-se um verdadeiro sacrifício. A tristeza e a dor que sentes prolongam-se e aos poucos vão roubando o lugar à felicidade. Começa a surgir um sentimento de vazio, pois nada te satisfaz, nada te faz sorrir de maneira espontânea, nada te faz rir até a barriga doer, nada te deixa com um brilho nos olhos, nada te proporciona alegria.

Passas a viver fechado numa bolha, lá fora a vida passa a correr, mas dentro da tua bolha vives em câmara lenta e todas as dores são intensificadas. À tua volta toda a gente parece feliz, toda a gente traz um sorriso no rosto, as pessoas dão gargalhadas bem altas, e tu não consegues entender de onde vem tanta felicidade. Sentes-te diferente porque não consegues sentir-te feliz, não consegues rir como toda a gente. Esforças-te tanto para conseguires sentir alguma coisa que te faça soltar um pequeno sorriso, algo que faça o teu coração acelerar, mas por mais que tentes não consegues e acabas mesmo por desistir.

Vives prisioneiro da tua mente que te leva a pensar nas piores questões: Por que motivo ainda tenho de acordar todas as manhãs? Por que razão tenho de abrir os olhos se não sinto prazer em nada? Por que não tenho direito a ser feliz? Por que me sinto assim? Porquê eu? O que há de errado comigo? Na tua cabeça surge um turbilhão de pensamentos autodestrutivos: Esta tristeza nunca irá desaparecer; Nunca irei voltar a ser feliz; Não sou suficientemente bom; A minha existência é indiferente; Ninguém se importa comigo; Não sirvo para nada; Não sou bonita/o; Sou um peso na vida de toda a gente. É neste momento que a tua mente se torna a tua pior inimiga, ela sabe os teus pontos fracos e vai atacar-te até te deixar completamente no fundo.

Percebes que viver se torna doloroso quando a depressão se apodera da tua mente, do teu corpo, dos teus pensamentos, dos teus sentimentos, dos teus sonhos e das tuas esperanças. No dia em que ela te tira isso tudo, é o dia em que tu “morres”. O teu corpo ainda continua aqui, porque enquanto o teu coração bater e o teu sangue correr nas veias, o teu corpo continuará vivo. Porém a tua alma já não está cá, a tua essência “morre” e o que resta dentro desse corpo é um vazio escuro. Mas não estás totalmente vazio, até porque a depressão tem sentimentos, os mais dolorosos que alguma vez sentirás. Vives todos os dias com tristeza e angústia, no início é doloroso, contudo chega um dia em que te habituas, em que deixas de conhecer outros sentimentos e passas a viver uma vida de tanto faz. O que te motivava antes já não te motiva. As atividades prazerosas já não te dão qualquer prazer. As esperanças que tinhas foram-se esgotando. Os sonhos que tanto querias concretizar já não têm qualquer importância.

Aos poucos vais-te afastando das pessoas, sem te aperceberes, sem qualquer motivo, mas pouco a pouco, distancias-te delas. Passas a viver na solidão, evitas estar rodeado de pessoas, porque até isso te traz dor. As lágrimas passam a escorrer pelo teu rosto com mais frequência, porque tudo te deixa triste. A depressão sugou-te as forças e a fraqueza vai-te levar ao limite. O sentimento de desespero aumenta a cada dia porque já não te sentes capaz de aguentar tanto sofrimento e a única coisa que desejas é que essa dor desapareça. Tens vontade de rasgar o peito porque já não cabe tanta dor dentro de ti, já não aguentas esse cansaço que te leva à exaustão, já não aguentas viver.

É triste quando viver se torna algo doloroso. Não deveria ser assim, ninguém deveria sentir dor em viver, a vida não deveria ser dolorosa. Viver, só por si, já deveria ser motivo suficiente de felicidade e de prazer.


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