Vê-me!

Abranda.

Respira fundo, apesar de eu bem saber que é com dificuldade. Mas respira o máximo que conseguires. O máximo que os teus pulmões possam acarretar com ar.

Abre os olhos e olha em frente. Vê-me.

Olha-me de cima a baixo e de baixo a cima. E observa bem a figura que à tua frente se encontra. Lê a sua alma, o seu coração e as motivações e sentimentos que se afogaram nas lágrimas que tu fizeste cair. Nas lágrimas em que tu foste a fonte de origem, o gatilho para a sua queda.

Observa.

Fica-te um pouco a observar. E abranda.

Respira e dá mais uma vista de olhos à pessoa que permanece ainda em frente de ti. A olhar-te com olhos de quem já te viu de tantas maneiras que custa listá-las. Apesar de não ser má ideia o fazer.

Agora, vê-me.

Sente a minha respiração longe da tua. Mas que ao mesmo tempo, será o mais perto que tu irás poder senti-la, de agora em diante.

Vê-me. Vê bem, pois será a ultima vez que me verás.

E este será o único momento em que terás a oportunidade de me dizeres tudo o que quiseres dizer.

Grita-me. Revolta-te, se for preciso. Mas não deixes nada por dizer. Pois todos os capítulos que queremos encerrar, não podem ficar com frases por ler, com citações por sublinhar nem conteúdos por encenar.

Diz-me tudo o que tiveres que dizer, pois esta é a tua oportunidade. A oportunidade. A única.

E agora, vê-me. Diz-me. Fala-me. E no final, segue em frente.

Vira costas da maneira que achares melhor. Inspirando uma última vez o meu perfume ou atirando-me à cara o facto de ter sido mulher o suficiente, para pôr o fim a algo que desde o início estava com o seu último suspiro a dar sinal de alerta.

Missão abortada. Porque, eu e tu, sempre fomos a química com falta de física e a matemática sem equações. Incompletos.

Sempre nos faltou algo essencial, para que pudéssemos permanecer juntos. Para podermos ter algum sentido. Mesmo por mais minimalista que fosse.

E diz-me adeus agora. Porque sim, irás descolar para outras bandas.

Coloca novas coordenadas GPS, liga o piloto automático se achares por bem. Mas parte.

Parte para longe.

E deixa-me aqui, sabendo que me olhaste uma última vez e que nada me fez voltar atrás na escolha que eu tomei.

Não me irás mais ver, observar ou sentir.

E sabes porquê? Porque quando eu dizia para abrandares, que a vida é para se viver os momentos que nos põe à frente. Tu não abrandaste, não respiraste fundo e observaste tudo aquilo que nos dava de bandeja. E só agora que te fiz as malas, é que te lembraste que os relógios avançam e as relações retraem-se.

Custa respirar com tanto peso do que poderia ter sido, mas que não foi. Mas respira, o tempo não dá segundas oportunidades e muito menos eu te daria.

É tarde demais.

Agora, vê-me sem ti. Abrandando.