Vai tudo ficar bem.

Apareces na minha vida enquanto eu pisco os olhos. Vens e viras tudo do avesso – até a mim me viras do avesso.

Uma varanda ao canto da sala, pouca luz, música ambiente – deixo-te escolher a playlist só para te conhecer mais um pouco – uma , duas, três cervejas e mais um quantos cigarros – conversas sobre um passado totalmente errado e completamente contraditório. Ignoro todo e qualquer sentimento que esteja a ter por ti – efeitos secundários que um bom ambiente nos pode proporcionar – penso eu , enquanto dou por mim a olhar para ti, ao mesmo tempo que mexes os lábios ao som que uma musica que me faz viajar para bem longe deste mundo. Estás a falar mas eu nem te estou a ouvir. Vamos dormir, amanhã é outro dia.

Acordo para ir trabalhar e consigo despedir-me de ti ainda com ainda com mais amor do que aquele com que me deitei, mas desta vez, já mais consciente da realidade – acho eu. Existe algo aqui que não está a bater certo. Deixa-me odiar-te só mais uns tempos – logo agora que estava tudo tão bem.

Pessoas transparentes com olhares inacabados – somos nós. Todo um conjuntos de sentimentos ainda que com alguma escassez que demonstração de algo que nos parece óbvio. Eu quero sentir a tua respiração mais perto da minha. Está na horas de ir-mos embora e eu conto mais uma ou duas piadas, tu ris – gosto de quando te ris. E é ao som do teu riso que te encosto à parede da sala – e de repente fica tudo em silêncio , deixas de rir e fechas os olhos. Estás a míseros centímetros da minha boca e eu deixo de pensar – fecho também os olhos e aproximo-me mais um pouco – Estamos no momento certo, já sinto o toque dos teus lábios nos meus, suave. Ficamos à espera de um mínimo movimento que seja, para que finalmente surja um beijo. Coloco a minha mão no teu pescoço, sempre com medo que me afastes . Já está. 5 segundos que pareceram 10 minutos. Afastas-me. Isto não pode acontecer connosco – Logo agora que está tudo bem.

Vamos tentar ignorar o que se passou. 82km de uma viagem onde ninguém fala. 82km e aquele beijo ainda não me saiu da cabeça. Deixo-te em casa.
“Temos que falar” – volta tudo ao inicio – aquele errado que parece tão correcto. Peço-te desculpa mais uma vez e tento convencer-me de que “aconteceu” – A verdade é que fazes disparar o meu coração cada vez que estás ao mim de mim. Deixo de saber agir, de saber existir. De saber respirar. “Até amanhã”.

E é durante uma semana inteira que tudo o que é errado, vai parecendo cada vez mais normal. Tens um toque tão natural, tão bom. Um sorriso e uns olhos tão brilhantes. Olhas para mim com cara de criança desprotegida – embora saibas bem o que queres. A verdade é que quando as luzes se apagam, eu sou a primeira a ter medo do escuro. Ainda assim tento proteger-te e digo-te que vai tudo ficar bem – “Vai tudo ficar bem.” – A frase do final de cada beijo. Desejo incontrolável em te ter perto de mim. De te agarrar. De te encostar a mais uma parede. De te apertar o pescoço e sentir que fechas os olhos e que também me queres da mesma maneira. Puxas-me o cabelo em jeito de auto controlo. Respiras ao meu ouvido – está tudo ao contrário – Não me posso perder em cada parte do teu corpo mas acabo por perder a noção do real. Finais inacabados. Vou guardá-lo para mim.

“Vai tudo ficar bem.”