Uma Típica Manhã…

Acordei com os raios de sol a iluminarem a minha janela. Continuei deitado na cama a pensar nela, uma típica manhã na minha vida longe dela. Ela tinha saído para trabalhar, era greve de metro e o trânsito estava um caus, pensei em ligar-lhe mas tive receio de me intrometer na condução dela, sempre fora tão cuidadosa com isso. E nesse momento eu recebi uma chamada. O meu coração encheu-se só de julgar que seria ela e atendi com o maior dos sorrisos. “Olá amor lindo da minha vida!”. Não quis acreditar quando a voz que entoava do outro lado da linha não era a dela. O meu mundo parou ali, naquele momento.

Foi aí que o nome completo dela foi pronunciado e eu não acreditei que a minha resposta ao facto de me apresentar como namorado dela alguma vez me pudesse doer. Mas desta vez doeu e doeu tanto, porra! Senti toda a dor do mundo a cair sobre mim. E juro que ainda eu não estava em mim quando já me contavam os detalhes sobre o estado dela. “Um acidente… Seis carros… Ela estava lá… Mas, como?! Ela era tão cuidadosa! Eram seis da manhã quando ela saíra de casa mesmo por isto… Porque não gostava das confusões!”

Pedi todas as indicações de que precisava e fui visitá-la. Pediram-me que fosse calmo, que não mostrasse as minhas emoções para com ela porque isso poderia afetar ainda mais o estado clínico dela. Até pensei que fosse uma tarefa algo fácil…, nunca fui um homem muito expressivo ou até muito emotivo. E tanto que ela detestava isso em mim, tanto que ela reclamava com este homem de pedra.

Mas quando entrei naquele quarto… Quando a vi deitada numa cama com todas as suas forças caídas pelo chão, mais pálida do que o normal…, o mundo caiu sobre mim e eu sem forças deixei-me cair também. E chorei! Bolas, eu chorei como uma criança, como se em todos estes vinte e três anos de vida nunca tivesse chorado e as minhas lágrimas quisessem sair de mim e aproveitassem então aquela hora. As enfermeiras tentaram acalmar-me, sem sucesso, claro…

Visitava-la todos os dias. Não faltava um dia nem por nada. Por mais que me custasse a alma vê-la naquele estado eu tinha que estar presente para ela. Eu prometi-lhe isso. Que estaria com ela no bem e no mal.

Visita após visita as melhoras eram quase nulas, ou assim me pareciam. Por vezes ainda ouvia as enfermeiras a titularem-na de mulher guerreira, que orgulho da minha princesa. E ela era mesmo uma guerreira que por vezes pestanejava e deitou até uma lágrima. Juro que sim! Não era imaginação minha por mais que as enfermeiras assim o achassem. Ela estava a lutar com todas as suas forças para voltar para perto de mim, eu sei disso. E por isso mesmo eu continuava lá ainda com mais forças!

Um dia cheguei ao hospital e uma enfermeira dirigiu-se a mim. Fez-me perguntas sobre o nosso relacionamento que não entendi até certa altura. Amnésia… Ela tinha-se esquecido de quem eu era. De quem ela era. De quem nós um dia já fomos. As enfermeiras ainda me perguntaram o que é que eu queria fazer. Aconselharam-me que o melhor seria fingir-me apenas de amigo dela. Não me faria sofrer tanto. A amnésia podia durar dias ou a vida toda. Como seria eu capaz de esquecer também tudo o que passei com ela?! Então gritei, esperneei e afirmei que nunca na vida me ia fazer passar por um simples amigo do amor da minha vida. Entrei naquele quarto a medo. “E se entretanto ela já se tivesse apaixonado por outra pessoa?!” Não, não podia ser!!

Continuei a caminhar e cada vez tremia mais. Mas quando lá entrei… Porra! Ela estava lindíssima. Como no primeiro dia em que a vi. Foi aí que me apaixonei mais ainda por ela. Não lhe levei flores nem nenhum postal como muitas outras visitas já o tinham feito. Não tinha nenhuma roupa jeitosa vestida mas tinha o amor todo que sentia por ela a cobrir-me. Até que ela olhou para mim com o seu sorriso ternurento e me disse o olá mais querido que já ouvira. O meu mundo parou. “Será que ela se lembrara de tudo o que passámos?” O olhar dela era tão apaixonado…

Aproximei-me dela e cumprimentei-a também. Continuei na dúvida até a enfermeira me explicar tudo mais uma vez…

Continuei a visitá-la dia a pós dia. Falámos sobre a sua doença. Falámos sobre a sua vida. Falámos sobre a minha vida. Sem nunca lhe explicar que aquelas duas vidas se encontravam e se tornavam numa só. Fiz tudo o que sabia que ela gostava. Todos os dias fazia com que ela se sentisse bem comigo e todas as semanas tínhamos os mesmos planos, a mesma agenda. Todas os dias o meu objetivo seria que no final da semana ela se apaixonasse (mais) por mim…
Até porque a memória dela durava apenas o curto espaço de uma semana. E semana após semana, eu fazia com que ela se apaixonasse de novo por mim. Sem nunca me cansar. Sem nunca desistir. Porque amor é isto. Amor é ela…