Uma questão de escolhas…

A noite era negra, imperfeita e ácida, gelada como vidro fazendo parar os pensamentos. Naquela avenida infinita tudo estava parado no tempo até a vida de André. Sentado no asfalto, encolhe-se e enrosca-se no casaco de malha que traz vestido para enganar o frio que lhe consome o corpo e a alma; parece ser a única coisa que lhe resta: não tem mais nada, nem um mero pedaço de pão. A fome, essa, já aperta há algum tempo; mas eles tiraram-lhe tudo, deixando-o sem nada: sem dinheiro, sem vontade de viver, sem alegria até a dignidade lhe roubaram. O direito a ser feliz, e a fazer as suas escolhas; o direito a um teto, a segurança e proteção; o direito a ter uma verdadeira família.

Olha à sua volta e cruza-se com o vazio da noite cerrada como uma janela que não é aberta há muito tempo. Sente-se sujo, sem amor-próprio, desiludido com a vida. Falta-lhe esperança, carinho e amor: acima de tudo compreensão. Há muito tempo que André não se sentia tão sozinho e abandonado.

Ultimamente, André apercebeu-se que havia algo de diferente em si, algo que ainda não sabia descrever e muito menos compreender. Uma forma diferente de estar, uma maneira estranha de olhar.
Numa tarde de conversa, depois das aulas, com os amigos, veio à baila um tema sobre o qual ainda nunca tinham falado abertamente: Manel contou aos amigos – a título de segredo – que um amigo seu estava a passar por um dilema complicado: tinha descoberto a sua homossexualidade. O grupo entreolhou-se.

De repente, André ficou lívido e em perfeito silêncio, apático e pensativo. Levantou-se e disse que ia ao café buscar uma água. Sentia-se desconcertado, estranho e desassossegado. Não conseguia deixar de sentir as mãos suadas, acabava de descobrir a maior incerteza da sua existência. Será que ele também era como o amigo de Manel?

Não sabia, nem tinha bem a certeza disso; no entanto a dúvida parecia estar lançada. A única certeza que tinha era a de que se sentia nitidamente um rapaz diferente.

Agora, ali, sozinho, pensava na grande provação que a vida lhe tinha oferecido: quando mais tinha precisado das pessoas de quem gostava, tinha sido quando elas mais lhe tinham virado as costas e o tinham desiludido. E recuou no tempo: até àquela tarde de Outono. Dia cansativo de aulas, cabeça a mil: tinha-se declarado ao Ricardo; mas as coisas não tinham corrido nada bem, pelo menos como ele estava à espera e tinha imaginado e previsto; infelizmente, ao que parecia Ricardo não partilhava do mesmo sentimento por ele, não o amava, como André o amava a ele. E isso tinha-o despedaçado e entristecido, tinha-o deixado sem rumo e de cabeça perdida, sem saber muito bem o que pensar ou fazer. Sentia que lhe faltava o chão por baixo dos pés, que tinha perdido uma das pessoas mais especiais e importantes da sua vida, o melhor amigo, o companheiro de todas as horas.

Tinha andado a semana toda a pensar nisso e na chegada daquele dia: o dia em que ia contar tudo à família. Achava que eles não desconfiavam de nada, apesar de ele falar muito do Ricardo e das muitas saídas que faziam juntos, que já davam nas vistas. Só esperava e desejava que compreendessem: entrou em casa, pousou a mochila no quarto e desceu para jantar: cheirava a peixe assado no forno. Sentaram-se à mesa e começaram a jantar: depois da última garfada, André inspirou fundo, e começou a contar tudo aos pais.

À medida que recorda aquele jantar liberta as primeiras lágrimas, ao lembrar-se do que sucedeu a seguir: a mãe ficou boquiaberta, levantou-se muda e de semblante carregado, da mesa e refugiou-se na cozinha, a chorar. Já o pai com a sua personalidade severa e conservadora, levantou-se da mesa: de olhar frio e baço e sem dizer uma única palavra, deu-lhe uma estalada imprevisível. Lembrava-se como se fosse hoje das palavras frias, bem vincadas e desprovidas de sentimento ditas pelo pai: “Era o que mais me faltava ter agora um filho que meteu na cabeça que gosta de homens, imagino o falatório que isso iria dar no meu trabalho e no da tua mãe e na rua junto dos nossos amigos e conhecidos. Não quero andar todos os dias a ouvir comentários, não estou para isso, é que nem pensar. Ou deixas essa vida ou a partir de hoje deixas de ser nosso filho, ouviste?

André explicou ao pai, que o que ele sentia não era algo que se pudesse mudar como se muda de roupa, que era uma questão de sentimentos, de escolhas. Que tinham que as aceitar e respeitar. Que não podiam obriga-lo a ser algo, que ele não era, que tinham que aprender a gostar dele tal como ele era. Mas o pai não esteve com meias palavras: “Não quero saber disso para nada. Sai desta casa, este lugar já não te pertence, deixaste de ser bem-vindo aqui, põe-te lá fora. Rua!!!!”.

André foi forçado a deixar a sua casa, sem poder levar mais nada consigo a não ser apenas a roupa que trazia vestida e uns trocos no bolso: eram as únicas coisas, que ele tinha. De voz embargada, cabisbaixo e com os olhos cheios de lágrimas deambulou horas a fio pela noite dentro, até encontrar aquele recanto – naquela avenida – onde ficou sentado lado a lado com a fragilidade da vida.

De repente, reparou na presença de uma carrinha que acabava de chegar – já tinha reparado nela várias vezes, quando passeava à noite por aquela avenida com os amigos, nas suas saídas noturnas –, do seu interior saíram pessoas de várias idades: mas eram essencialmente jovens. Que abriram a parte traseira da carrinha e começaram a montar uma mesa improvisada e a retirar caixas de papelão. Imediatamente, vários sem-abrigo que por ali se encontravam: como André, se foram aproximando da carrinha. André olhava com desconfiança para aquele cenário: nunca na vida se imaginaria a um dia precisar de depender dos outros para se aquecer, para se alimentar: para sobreviver.

Quando menos esperava, um jovem de ar radical; mas bem-parecido: cabelo espetado mergulhado em gel, olhos claros e argola na orelha, aproximou-se dele. Trazia uma bata vestida, no cartão estava escrito que era voluntário numa associação de apoio a sem-abrigo: não fixou o nome. Entregou-lhe uma tigela de sopa quente e um saco de plástico que continha: um pacote de leite pequeno e uma sandes de queijo. André agradeceu timidamente e de ar bastante comprometido; uma vez que, quem olhasse para ele sabia de imediato que ele nunca poderia ser sem-abrigo: vestia roupas boas, e apresentava um aspeto limpo e cuidado.

À medida que o tempo foi passando, Rui Pedro, estranhou a presença contínua de André naquele lugar. Rui questionou-o acerca da sua presença naquele lugar: noite após noite. André contou-lhe a sua história e acabou por perceber que Rui já tinha passado por uma experiência idêntica. Rui propôs-lhe que falassem com o psicólogo da associação – onde era voluntário –: que ajudava a associação quando os casos eram mais complicados ou sensíveis, para que ele pudesse atuar atempadamente junto da sua família, convidando-os para uma conversa.

O psicólogo mostrou-se profundamente preocupado com a atitude e recusa deles; fê-los perceber que a homossexualidade, não tinha mal algum, que era uma opção de vida que as pessoas tinham que aprender a aceitá-la; ainda que a sociedade actual não se mostrasse preparada para isso. Mas que, mais cedo ou mais tarde, esse passo teria que ser dado, afinal de contas, as pessoas não são todas iguais, não fazem todas as mesmas opções de vida. E esse seria o aspeto fundamental para a evolução da humanidade.

Gerou-se um silêncio seco, incómodo e pesado entre todos; os pais de André e Eduardo mostraram-se renitentes em seguir os conselhos e dicas do psicólogo, porque não iam de encontro às suas crenças. Eduardo explicou-lhes que eles não podiam continuar a agir daquela forma com o André, que não podiam continuar a bani-lo da sua vida por uma coisa da qual ele não tinha culpa, que era apenas e só uma escolha pessoal dele. Prometeram tentar mudar e aceitar o filho tal como ele era: ainda que fosse algo difícil.

O tempo foi passando, André e Rui Pedro foram – aos poucos – construindo cada vez mais laços, tornaram-se grandes amigos, cúmplices e companheiros.

André decidiu contar ao irmão que ele e Rui estavam juntos, ele mostrou-se feliz por finalmente André ter encontrado o caminho certo e a pessoa certa. Eduardo teve a ideia de organizar – naquela mesma noite – um jantar em casa para que os pais se fossem habituando à nova realidade; uma vez que, tinham simpatizado imenso com o Rui. Primeiro estranharam a situação, fazia-lhes alguma confusão o amor que André sentia pelo Rui, o facto de ambos andarem de dedos entrelaçados na rua e aquela cumplicidade tão intensa que os unia; mas depois acabaram por aceitar e até proporcionaram um bom ambiente. Até disseram que ficavam bem juntos e perceberam que não podiam rejeitar o André nem desrespeitar as suas escolhas. E pediram desculpa pelo sofrimento causado. Eduardo ficou satisfeito e agradado.

Terminou o jantar, André e Rui foram até ao alpendre, para poderem estar um pouco sozinhos a conversar, o ambiente acabou por proporcionar a troca do primeiro beijo, estavam felizes e abraçados um ao outro, André acabava de partilhar com Rui o facto de se sentir completo com ele a seu lado; em cima da mesa estava uma revista aberta numa página onde se salientava a seguinte frase:

A maneira de amar pode ser diferente; mas o Amor… Esse nunca mudará. Será sempre igual ou quem sabe talvez ainda maior.

E assim foi…

PORAna Ribeiro
FONTEEscreviver
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