Uma nova oportunidade!

Rabisco um papel amassado, completamente desfeito nas minhas mãos. Olho para o estrago que causei ao pobre papel frágil, que continua disponível para eu riscar até cansar, até a caneta ficar sem tinta talvez. A casa permanece muda diante dos meus gritos em forma de lágrimas. Até o papel amassado parecia desculpar-me por feri-lo, compreendendo-me. Sinto-me culpada por sentir-me assim. Como pode uma alma sorridente, de repente ver-se mergulhada no abismo?

Quero ouvir a voz da razão que me abandonou, justamente por ser incapaz de derrotar a emoção que me aprisiona. Até a razão baixa os braços diante do poder da emoção. Olho para a lareira, o fogo destrói o papel que amassei sem dó. Vejo o meu próprio coração no meio das chamas que dançam. Vejo o teu rosto e o meu, sinto que estou a matar-te dentro de mim. No entanto, também assisto á minha própria morte. Porque me tornas-te numa assassina?

Porque me obrigas a matar o que me mantinha viva? Dói tanto… sabes?

Matar-nos dói… não sentes?

As lágrimas queimam-me a alma… estou em chamas! Sinto o sabor do nosso primeiro beijo e o último. Não te lembras de me prometer que jamais me magoarias?

A porta por onde sais-te continua aberta. O fogo assume um riso maléfico com os nossos rostos. Ele não voltará.

Vejo-me caída no chão exausta, e de um certo modo, finalmente morta. O fogo continuou a arder…

Ainda podia ouvir os passos dele a levarem-no para longe dali, e para sempre… nunca mais seriam um laço. O amor dá vida, mas também a arranca. O paraíso e o inferno não estão distantes. – Amo- te, foram as suas últimas palavras, antes de mergulhar no sono, onde a morte da alma surgiu.

Algumas horas depois, encontraram-na caída no chão junto á lareira. Parecia sem vida e as suas mãos mantinham-se no peito numa tentativa vã de fechar o buraco aberto que doía. O amor agora doía-lhe. Decidiram deitá-la no sofá. Observaram perplexos, o seu estado «de dor» mesmo dormindo. – O que terá acontecido? – Perguntou, um homem alto, sentindo-se inferior à sua estatura pelo sentimento de impotência. Não sabia o motivo da sua amiga de infância parecer-lhe uma estranha dominada pela fraqueza. Ela não era assim. Ainda assim, lhe parecia um anjo, mas um anjo ferido. Os pensamentos voavam à velocidade da luz, não conseguia mesmo encontrar um motivo. Fora ali, para a convidar para uma sessão de cinema. Olhou para a lareira e notou papel queimado. O silêncio foi quebrado pelo amigo.

– Ela não parece bem. Com a preocupação tinha-se esquecido dele. – Não, não está. Hoje não haverá filme para ninguém. Importas-te?

– Não. Fica com ela e tenta perceber o que se passou. Também estou preocupado. Se precisares liga! A porta fechou-se.

Atirou o casaco para o sofá vizinho, onde ela se encontrava imóvel. Fitou-a com os seus olhos cor-de-mel lacrimejados. Andava agora de um lado para o outro da sala com impaciência e sentindo-se ainda mais impotente. Pensou em levá-la para o hospital, mas não sabia se era motivo para isso. Iria deixá-la dormir, depois logo via.

O sol já se pôs no horizonte. André mantém-se sentado no sofá vizinho, ao lado dela. Perto de lhe tocar na mão que se mantinha fechada em punho. Um bocejo despertou-o do transe. Uns olhos azuis abatidos e confusos examinam a sala e o André que lhe sorria, mas com o semblante carregado de preocupação. Isso podia notar-se pela sobrancelha arqueada de uma forma muito particular. Ajoelhou-se no chão de frente para ela, afastando-lhe agilmente o cabelo do rosto.

– Sentes-te bem? – Perguntou ansioso, ainda que a sorrir. Ela não respondeu. Fechou os olhos e abriu-os mecanicamente. Não morrera verdadeiramente a olho nú, mas sentia-se morta. Porém, a morte fazia-a sentir a dor ainda mais. Sentia-se mutilada. Ele esperou pacientemente uma resposta. Embora, já tivesse notado parcialmente o motivo daquela tristeza profunda. Beatriz, finalmente deu-se conta da presença do amigo.

– Eu estou bem…

Não te preocupes comigo. – Tentou sorrir.

– Não me pareces bem.

– Hum… mas estou.

André segura-lhe delicadamente a mão cerrada que ligeiramente tremia.

– Não me convences-te. O que se passa?

– É que… bom…

– O que foi querida? – Perguntou angustiado.

Desviou o olhar para o chão, sem conseguir responder-lhe. As lágrimas caíram com vontade própria. Sentiu os braços dele a carregar o seu peso. Envolveu-a num abraço acolhedor e ficaram assim em silêncio. Ela permitiu-se descansar nos braços do amigo. Ele limitou-se a olhar para ela e a afagar-lhe os cabelos. Abraçou-o forte por estar ali. Ele retribuiu mantendo-a nos braços.

– Desculpa.

– Pelo quê?

– Por ter estragado o dia. Íamos os três ao cinema.

– Não estragas-te nada. – Sorriu.

Ela devolveu-lhe o sorriso. Olhou para si mesma. Meu Deus! Estou no colo dele e sempre reclamo, pensou. Mesmo assim, não deixou de sorrir.

– Porque, estás a sorrir?

– Porque, tratas-me bem e não mereço. – Respondeu-lhe, sentindo o instinto feminino a dizer-lhe que ele nutria sentimentos para além de amizade por si.

– Tu mereces ser tratada como uma rainha. Já te tenho dito!

Por quê que, o teu namorado não está aqui?

Ela empalideceu.

– O meu ex- namorado…

– Ele terminou?!

– Sim. – Murmurou, com a voz a falhar-lhe. Num gesto inconsciente apertou a mão contra o peito. Agora era insuportável repeti-lo. O papel amassado, a porta aberta… os passos que o levaram para sempre… o fogo. Não posso suportar, não posso. Dói muito.

– Por isso, estavas no chão…

– Oh, Beatriz! Porque, não me ligas-te? – Abraçou-a.

Ela chorou.

– Não consegui. – Soluçou.

– Maldito! – Pensou.

O fogo ainda ardia na lareira, continuando a ser testemunha do desespero. Ele continuou a confortá-la como podia. Ela por outro lado aconchegava-se ainda mais dentro daqueles braços protectores. A noite prolongou-se, e ele tornou-se o guardião do sono dela, enquanto conseguia dormir. Ora acordava aos gritos, ora dormia com dificuldade de um sono tranquilo. A inquietação não cessou.

Durante as primeiras horas da manhã acordou, ao seu lado estava o André a dormir profundamente, sempre com o braço protector. Não conseguiu deixar de sorrir ao vê-lo assim. Depois foi invadida pela tristeza. Ainda posso sentir o sabor amargo, pensou. Com cuidado, desfez-se dos braços dele e dirigiu-se para a cozinha. Os seus passos guiaram-na no escuro sem esbarrar nos móveis. Acendeu a luz da cozinha, suspirou profundamente. Esticou-se para pegar no copo no armário. De seguida, depois de encher o copo com água, senta-se numa cadeira debruçada na mesa, com o olhar distante. O silêncio era insuportável. Nos sonhos só repetia a despedida, o último beijo.

No quarto, André acorda sentindo-se «vazio». Não a tinha nos braços. Olha ao redor do quarto, acende a luz. Ela não estava. Procurou-a pela casa, notando a luz da cozinha acesa. Aproximou-se sem fazer ruido. Viu-a debruçada sobre a mesa com o copo na mão. Esperou um momento antes de entrar.

– Então, já acordada? – Sorriu.

Olhou para ele e sorriu.

– O sono não quer nada comigo.

– Comigo, também não.

– Desculpa, se te acordei…

Tentei não fazer barulho.

Ele sorriu.

– Não acordas-te.

– Hum. Queres beber ou comer alguma coisa?

– Vou beber. Deixa-te estar aí sentada.

Ela permaneceu imóvel, mas seguiu-o com o olhar. Ele sorriu-lhe e sentou-se ao seu lado. Conversaram, ficaram em silêncio. Ele perguntava-se, se um dia ela conseguiria superar. Parecia-lhe tão frágil, uma boneca de porcelana fácil de quebrar. E uma vez em cacos, jamais voltaria a ser a mesma. Temia isso. Se sorrir não será o mesmo sorriso. Sentiu vontade de lhe tocar no rosto, beijar-lhe as lágrimas que lhe cortavam a alma. Por egoísmo, desejava-a para si. Se fosses minha… não cairiam essas lágrimas, nem o teu peito dilacerava de dor. Amo-te tanto, mas não imaginas o quanto, pensou.

O dia finalmente nasceu.

– Então, o que vamos fazer hoje? – Perguntou-lhe, André para a animar.

– Atirar-te almofadas à cara! – Riu.

– Que mau humor!

Mas, se isso te faz feliz… abusa! – Sorriu.

– Oh, estou a ser má.

Escolhe o cavalheiro. – Sorriu.

– Hum… deixa ver.

Que tal um piquenique?

Há algum tempo que não o fazemos.

Beatriz sorriu nostálgica. Lembrou-se do quanto era divertido fazer piqueniques com a sua presença. O tédio nunca se instalava e o seu riso era contagiante.

– É verdade. – Concordou.

– Então, alinhas?

– Claro!

Boa! – Sorriu. Nisso puxa-a para os seus braços elevando-a até tirar os pés do chão. Beatriz começou a rir.

– Ops…

Desculpa. Entusiasmei-me!

Riram.

– Então fica combinado! – Disse, ela.

– Sim.

– Vou preparar as coisas.

– Deixa comigo, Beatriz.

Vai-te preparar, porque as mulheres demoram imenso! Empurrou-o.

– Mentira!

Ele riu. Beatriz retribui-lhe com uma careta fingindo-se ofendida, mas estava a divertir-se. Sentia-se mais leve.

– Vou a casa trocar de roupa. Volto dentro de duas horas.

– Ok.

Até já!

Acompanhou-o até à porta. Ficou parada a vê-lo partir. Pelo menos ele voltará, pensou. É difícil suportar sozinha. A casa vazia novamente, as lembranças começam a surgir. Corro para o quarto, porque não suporto ver a porta por onde sais- te. Sentou-se na cama com os joelhos no peito, olhando para o espelho que reflectia o seu reflexo deplorável.

– Como eu estou!

Vou tentar animar-me, não quero aborrecer o André com os meus dramas.

Decide tomar um duche rápido. As mulheres demoram imenso, relembrou. – Não vou demorar idiota. – Riu.

Enrolou a toalha branca no corpo e no cabelo. Escovou os dentes a olhar para o seu reflexo a melhorar. Rápidamente vestiu um calção azul, uma blusa branca de alças e o cabelo decidiu deixá-lo solto. Estava pronta!

O telemóvel tocou.

– Sim, já estou pronta!

Ouviu o bater na porta. Sorriu ao perceber quem era. Abriu.

– Olá!

– Olá!

– Estás linda!

– Obrigada.

– Vamos?

Ofereceu-lhe o braço.

– Estás muito cavalheiro!

– Eu sou cavalheiro!

– Sim, claro. – Riu.

– É bom ver-te rir.

Tenho de ser idiota mais vezes.

– Já tens o dom!

– Ei!

Ela riu. Entretanto, caminharam lado a lado de braço dado até ao jardim que existia ali perto. Costumavam ir para lá. Ainda bem, que o tenho como amigo. Olhou para ele, observando-lhe o rosto com mais atenção. Ele gosta de ti estúpida! Rosnou-lhe a consciência.

A consciência tinha razão.

Já se encontravam no jardim. Durante todo o tempo ele olhava-a com ternura. Ela olhava para ele, desejando estar em paz como agora. De que valem as lágrimas, se tenho um sorriso, que valoriza o meu?

– Estás bem?

– Sim. – Respondeu-lhe sem mentir.

Ele não ousou tocar no nome dele. Aproveitou o sorriso dela. Também precisava dele para consolar o desgosto de não a ter para si. Como gostaria de ser o dono dos olhos dela! Do amor…

Libertou-se dos pensamentos e fê-la rir dançando no meio do jardim com o ritmo do vento.

– És louco!

– Sou.

Quero que te divirtas e esqueças o estúpido que…

Calou-se.

– Desculpa… falei demais.

– Eu vou ficar bem. Não te preocupes.

Será que vou? – Pensou.

Continuaram a divertir-se. Ele acompanhou-a nos próximos dias, não a deixando sozinha. Ela sentiu-se protegida. Com o passar do tempo conseguiu esquecer e apaziguar a dor. André fizera-lhe bem.

Um ano passou…

Sem querer viu-se apaixonada por ele. Com medo, não lhe confessara. Voltaram ao mesmo jardim. Ele andava estranho, muito ansioso, inquieto.

– O que tu tens?

– Nada querida.

– Pois.

Ele sorriu.

O que ele andará a tramar? Quando fica assim…

André olha ao redor do jardim, não tinha ninguém por perto. Pensou e repensou, as palavras não lhe saiam. Ela olhava-o com ternura tentando perceber o motivo de tanta inquietação. Ele começou por dizer.

– Estás linda!

Bem…tu és linda!

Sem perceber corou.

– Obrigada.

– Beatriz, não sei como dizer-te isto…

– Falando!

Ele riu.

– Obrigada pela dica.

Ela sorriu.

– Querida…

Eu sempre fui apaixonado por ti. Então precisava confessar-te, sinto-me sufocado se não posso ver-te a sorrir, abraçar-te e ainda lidar com o teu mau humor matinal. Meu Deus, tu afugentas qualquer um!

Ainda assim, amo-te e quero que saibas disso. Mesmo que… não me ames. Eu sou teu, quer me queiras ou não.

Beatriz sentiu as lágrimas, mas desta vez não feriam. Abraçou-o.

– Amo-te. – Sussurrou.

– Então, aceitas namorar comigo?

– Aceito.

És o meu anjo.

Ele tomou-a nos braços, os lábios uniram-se num beijo urgente com o gosto de «para sempre». Mais tarde, o ex- namorado viu que a amava e ela viu que ele só foi mais um. O lado mais triste do amor é não sentir mais nada.


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