Uma mesa vazia…

Valorizo muito mais uma mesa vazia. Que afirmação ridícula. Tenho quase a certeza que se algum membro da realeza ouvisse esta minha afirmação se levantaria da tumba, só para ver quem seria o estúpido capaz de a pronunciar. E eu explicar-lhe-ia  o porque de valorizar uma mesa ausente em motivos. Ausente em obrigações. Onde ficaríamos pelo simples facto de tal ação nos dar um prazer danado.

Pelo facto de a vida de quem está à nossa direita, ou à nossa esquerda, nos interessar mais que a nossa. Não por coscuvilhice, apenas para saber quantos filhos têm afinal a Tia Rita. E se o Tio José ainda tem a horta.

Ficaríamos na mesa apenas e exclusivamente pelo prazer da permanência, e a conduta nada teria que ver neste caso.

Que se lixasse as horas, e a mulher que decidiu não vir, por considerar a Prima Maria, uma autêntica chata.

Que se lixassem todos aqueles que se resignassem ao prazer que é em permanecer numa mesa vazia.

Falaríamos depois em como o António está crescido e em como foi a sua primeira desilusão amorosa.  E continuaríamos por mais umas horas, por mais uns dias, a habitar o lugar mais sincero do mundo, e que se lixasse os abraços forçados, e o beijo de despedida e de saudação.

Nós fazíamos-o pelo sentimento que se despertava quando os lábios de alguém que sabe todas as tuas dores, tocam a cara tão desgastada pelas lágrimas de uma vida, bem vivida.

E a  minha era. A nossa era. Oh, se era.


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