Uma Escolha por amor!

Estava longe de imaginar que o Amor me fosse colocar perante uma provação destas, que me obrigasse do nada a fazer uma das escolhas mais difíceis de que me lembro de ter memória. Confesso que nunca gostei nada de ter que optar por uma coisa em detrimento de outra, nunca gostei de escolher nem de ter que fazer escolhas. Desde muito novo que me lembro de ficar de coração partido quando me obrigavam a tal; agora na fase mais adulta da vida, as escolhas voltam a bater-me à porta.

Como é que se escolhe entre o amor incondicional que sentimos por alguém e a vida dessa pessoa? O que é que deve pesar mais na nossa cabeça e no nosso coração? O Amor e a vida são duas coisas inquestionáveis, são tão maiores que nunca será possível quantifica-las.

Ainda não consegui fazer a minha escolha, meu amor. Não consigo aceitar a ideia de te perder para sempre, de ficar com o teu amor para todo o sempre; mas perder a parte mais importante da tua existência: a tua essência. A forma como me completas, como me fazes feliz, como me amas, como complementas a minha vida e o meu ser. Não sei o que hei de fazer, este deve ser o maior dilema da minha vida, amor. Quem me dera que pudesses ouvir agora, que pudesses ouvir o desassossego da minha alma, a inquietação do meu coração. O Amor que me mantém e manterá sempre preso a ti para sempre. Quem me dera que estivesses aqui para me poderes aconselhar, para me ajudares a pensar e seguir o caminho certo, como sempre fizeste com a tua sabedoria especial, com a sinceridade, cuidado e sensibilidade que sempre te caracterizaram. Gostavas de prestar sempre atenção aos pormenores, gostavas de ir ao mais fundo das questões. Nunca davas nada logo como adquirido, eras uma das pessoas mais ponderadas que conheci e conheço.

Não sei que decisão tomar, sinto-me completamente perdido como tivesse passado a viver numa verdadeira montanha russa. Não há quantos dias de mantenho aqui. Sentado nesta cadeira velha de madeira, ao teu lado, de dedos permanentemente entrelaçados nos teus à espera de um simples sinal teu, nem que seja uma réstia da tua força, da tua esperança, do teu amor. Mantenho-me agarrado a ti e à tua vida como se a minha vida dependesse da tua para continuar e seguir em frente. Espero que me ouças, que me sintas, que sintas cada gesto meu, cada carícia: tão suave como o vento e com o tanto que sinto por ti. Nesse teu silêncio que me corta os pensamentos e as palavras espero que algo te devolva à vida. A espera é agonizante e faz-me vacilar, rouba-me o chão que piso e todas as certezas e convicções que mantenho neste momento.

Sabes, meu amor; o tempo foi algo que deixou de ter medida para mim de um momento para o outro, não sei se já passaram dias, semanas ou meses desde que entraste neste hospital. A única certeza que tenho é que aconteça o que acontecer, passe o tempo que passar, eu tenho que estar aqui ao teu lado para o que der e vier, para o bem e para o mal; porque o amor verdadeiro é isto. Nunca, jamais, sairei daqui, do teu lado, estarei aqui a lutar contigo até ao fim, acredita e confia em mim e eu sei que em breve vamos vencer esta luta indelicada.

Hoje de manhã, vieram dizer-me que o melhor era eu pensar em deixar-te partir, que pouco mais haveria a fazer por ti, que tinhas sido uma brava guerreira; mas que a tua luta tinha chegado ao fim. Recusei-me a aceitar, chorei como nunca haveria chorado em toda a minha vida. Disse que ainda havia muito a fazer por ti, que não poderiam matar o nosso amor e tudo aquilo que nos unia assim sem mais nem menos.

E de repente lembrei-me das tuas palavras, ditas em jeito de brincadeira quando ainda não imaginávamos o que o destino nos reservava: “Se um dia por mero azar me transformar num vegetal, nunca te esqueças de deixar que a natureza me leve, que siga o curso natural das coisas. Não quero ser apenas uma simples memória, quero ser a flor mas bonita do jardim da tua vida”, abracei-te com todas as minhas forças e choramos juntos.

Prometi cumprir o teu pedido; mas agora que estava ali: junto a ti, a olhar-te, a tocar-te e a sentir-te, senti que jamais aquela promessa de outrora conseguiria ser cumprida por mim. Ninguém – nem mesmo a mãe natureza – te poderia roubar de mim, te poderia afastar de mim, nos poderia separar. Estava escrito nas estrelas que o nosso destino era ficarmos juntos e felizes para sempre.

No entanto, havia uma parte do meu ser que me dizia que: independentemente de tudo aquilo que eu sentia por ti, não poderia continuar a ser egoísta ao ponto de compactuar com o teu sofrimento, não poderia continuar – impávido e sereno – a ver-te ali, naquela cama, a lutar todos os dias mais um pedaço pela vida. Não podia manter-te apenas viva por te amar.

E escolhi. Com o coração apertado, com a razão em sofrimento, com as lágrimas a humedecerem o meu rosto, fiz a primeira grande escolha por amor, deixei-te partir. Vi na suavidade dos teus negros cabelos, a pureza das pétalas de uma rosa, senti na tua pele a doçura das folhas verdes de Primavera já livres de espinhos. Senti na tua pele bronzeada o poderoso caule que te mantinha presa à vida como a uma flor à terra. Sorri levemente e docemente, ao perceber que a partir daquele momento serias para sempre a flor mais bonita do jardim da minha vida: como sempre quiseste e desejaste. A memória mais feliz, a descrição mais perfeita de felicidade, amor e paixão inteiras e plenas.

Estava na altura de te deixar voar, beijei-te uma última vez, percorri os teus longos cabelos, guardei para mim o seu aroma, o teu cheiro. Toquei-te, deixei que a suavidade da tua pele se fundisse e se absorvesse em mim. E por breves segundos, tão breves como uma suave inspiração senti um fragmento da tua força, um apertar de dedos tão invisível que só sentido é possível descrevê-lo.

Um adeus! O teu adeus, meu amor.

O Amor nunca foi um sentimento de escolhas. Mas se há melhor escolha a fazer, é aquela que é feita por amor.

PORAna Ribeiro
FONTEEscreViver
Partilhar é cuidar!