Um Natal para sempre…

Esta é a história que nenhum idoso gostaria de contar e partilhar na noite de Natal…

É Natal. Mais um, igual a tantos outros, para a D. Zulmira: uma senhora de aspecto bicudo, fino e desengonçado por causa da companheira de todas as horas, que a acompanha para todo o lado: uma bengala castanha, em madeira: esguia, perfeita e prendada. A sua bonita idade – oitenta e cinco anos feitos há menos de um mês, já no hospital – há muito que lhe trazem muitas arrelias, nomeadamente no que diz respeito à mobilidade; Zirinha como é carinhosamente chamada, já não consegue dar as mesmas voltas que dava noutros tempos: cansa-se facilmente, as pernas parecem não querer obedecer, as articulações ficam frouxas e obrigam-na a sentar-se imensas vezes. Ela não gosta nada quando isso acontece; porque ela sempre foi uma senhora gerigota, hiperactiva e mexida, que passava o tempo todo a andar para aqui e para ali atrás dos netos, dos vizinhos e dos vários bichos que cria em casa: os porcos, as galinhas, os patos, os coelhos, até houve uma altura em que chegou a ter perus.

Há cerca de dois meses, que Zirinha se encontra fechada dentro daquelas quatro paredes desprovidas de cor, de alegria e aconchego: nem cheira a Natal. Logo ela que sempre adorou a época por causa das iluminações, do pinheiro, dos doces de Natal e do delicioso bacalhau cozido. Ali, nem disso se lembrava; a única coisa que lhe passava pela cabeça é que ao fim de tantos anos a comemorarem a quadra todos juntos, numa grande algazarra. Desta vez, estava destinada a passa-la completamente sozinha e abandonada.

De certa forma, nem se podia queixar assim tanto; afinal de contas, tinha sempre o carinho, o amor e os mimos das enfermeiras e voluntárias do hospital, mas não era a mesma coisa. Tinha saudades do filho Marco, da filha Amélia e dos netos Lili e Tomás; há pouco tempo tinham falado do Natal e começado a pensar e a organizar tudo. Zirinha, queria que o Natal fosse como nos últimos anos: em sua casa, todos juntos: em família. Mas a filha Amélia parecia ter outros planos: este ano ia com a família viajar para um destino onde houvesse neve, as crianças nunca tinham visto neve.

Amélia e Marco prometeram desde logo regressarem a tempo do almoço de Natal; mas segundo o que as suas sábias contas lhe diziam, o dia de Natal era já amanhã e dos filhos nem um telefonema. Sabia perfeitamente que tinha chegado a uma idade em que era um verdadeiro fardo para a família: estava velha, as doenças não perdoavam, cada vez se sentia mais frágil e com menos pedalada para grandes aventuras. Não conseguia acompanhar os filhos e netos nas saídas, nem nos passeios que eles faziam, fazendo com que acabasse por ficar por casa sozinha, sentada na velha cadeira de balançar – que estava sempre colocada em frente à velha lareira –, a tricotar com o não mais velho Pataniscas – de doze anos –: o gato amarelo-tigrado que era a sua verdadeira companhia.

Desde que o seu marido – que Deus o lá tenha em descanso – havia falecido, já lá iam uns bons anos, ao que parecia as tristezas da vida tinham levado a melhor sobre ele, que Zirinha se sente mais só: tudo mudou, nada foi igual. Ela sabia que ia ser assim… Não tem ninguém com quem conversar – a não ser com os vizinhos com quem troca uns galhardetes, de vez em quando; mas ela bem sabe que eles também têm a sua vida e que ela não pode estar sempre a invadir a sua casa – e a sua pouca companhia é a televisão, sempre se anima com as novelas. Gosta de ver aquelas histórias de amores e desamores. Fica colada ao ecrã até bem tarde, assim vai passando o tempo.

Ele era tudo para ela, José Luís era todo vivaço e de personalidade desassossegada e fluída, era um homem descontraído. Com o avançar dos anos tinha-se tornado um bocado rabugento e sensível; mas sem nunca perder a humildade, a sua honestidade e o seu ar amoroso e de eterno romântico incurável. Para além disso, nunca deixou de ser o bom homem que sempre tinha sido: bondoso e colossal.

O amor que sentiam um pelo outro era longínquo, antepassado e inabalável, desde muito novos que tinham percebido que tinham sido feitos um para o outro e que estavam tremendamente apaixonados. E isso acabou por se confirmar com o avançar do tempo: dos anos e dos dias, tornaram-se inseparáveis e ficaram juntos para sempre; até que a lei da vida os separou.

Zirinha ainda se recorda de como tudo aconteceu, como é que tinha ido parar ao hospital. Há já alguns dias que uma das suas galinholas andava a sair da casca: do nada começou a dar bicadas nas outras galinhas; mas bicadas a sério a ponto de deixar as outras sem grande parte das penas e com pequenas feridas pelo corpo, parecia endiabrada; todas as noites havia uma tremenda chinfrineira no galinheiro: uma autêntica batalha campal, mais parecia que os bichos se iam matar uns aos outros.

Até os vizinhos de Zulmira já se tinham apercebido que algo se passava e isso deixava Zirinha preocupada e comprometida pelo facto de o barulho das suas galinhas não deixar os vizinhos descansar.

No entanto, decidiu esperar mais uns dias para ver se a fúria das galinhas amainava um pouco, evitando assim uma atitude drástica; mas, ao que parecia as coisas estavam ainda piores: ao barulho das galinhas, juntou-se o barulho dos galos incomodados com a gritaria das suas amigas galinhas. Cada vez mais, noite após noite, o barulho se tornava ensurdecedor, o que já estava a deixá-la arreliada, há duas noites que dava voltas na cama em busca do sono, já havia perdido imensas horas de sono, e aos vizinhos também; por isso, no dia seguinte, Zirinha não esteve com meias medidas e decidiu acabar de uma vez por todas com o problema das galinhas: ia matar a atrevida da galinha que estava a deixar o galinheiro num alvoroço.

Só tinha um percalço… Não tinha forças suficientes para o fazer sozinha, mas para a Zirinha isso não era de todo um problema. Pela hora do almoço, foi bater à porta da Dona Gracinda – uma vizinha com quem se dava bastante bem – e pediu-lhe ajuda, a amiga não se negou. E juntas lá foram preparar a panela aonde iriam cozer a galinha.

Zirinha segurou na galinha com afinco, e Gracinda preparou-se para fazer o resto; mas, no dito momento a galinhola decidiu começar a bater as asas. A Zirinha assustou-se, largou a galinha e quando deram por ela… Zirinha tinha uma galinha sem cabeça a correr desvairada pelo quintal. O que deu aso a umas valentes gargalhadas entre as duas simpáticas velhotas; a Dona Gracinda desatou numa corrida quase desenfreada pelo quintal fora para tentar capturar novamente a galinha; mas ela estava completamente desnorteada e não se deixava apanhar facilmente. De repente veio o marido da Dona Gracinda, e o vizinho Rufino, e o senhor João, uma simples galinha sem cabeça conseguia deixar quase uma rua toda de cabeça perdida.
E o pior acabou por acontecer…

Zirinha pegou na bengala e ao ritmo do seu passo decidiu também ir no encalço da galinhola; mas, a sua fraca visão não lhe permitiu ver um pequeno desnível no caminho e ela acabou por cair, fraturando o pé esquerdo. A galinha já tinha sido apanhada e o trabalho finalizado; no entanto, naquele momento a principal preocupação era a Zulmira, que estava cheia de dores. Chamaram a emergência médica, que levou Zirinha para o hospital.

A Dona Gracinda encarregou-se de ligar à Amélia – dos dois filhos de Zirinha, era aquela que vivia mais perto –, que se mostrou bastante preocupada. Disse que não demorava mais de dez minutos até chegar ao hospital; mas nunca mais apareceu.
Zirinha foi vista por um médico que recomendou que ela ficasse em observação até ao dia seguinte, por causa da sua idade, colocou-lhe um gesso no pé e deu-lhe alguns medicamentos para as dores.

Desde este dia que Zirinha nunca mais saiu do hospital: os vizinhos não podiam acolhê-la na sua casa porque praticamente todos trabalhavam, não podia ficar sozinha em casa porque com o pé engessado quase não se podia movimentar e corria o risco de dar uma nova queda. E dos dois filhos, nenhum se mostrou disponível para a levar para sua casa, tinham uma vida demasiado activa para ficarem presos de um momento para o outro, em casa, a tomar conta de Zirinha. Por isso, ela foi ficando ali: esquecida, abandonada; era simpática, divertida, alegre – a alegria era apenas exterior porque interiormente o seu coração era feito de tristeza e desilusão – e fazia amizades com muita facilidade. Depressa ficou amiga das enfermeiras, das voluntárias, dos doentes que partilhavam da mesma enfermaria que ela e de outros com os quais se cruzava pelos corredores. O serviço de ortopedia daquele hospital era agora a sua casa: uma casa diferente, menos sossegada, menos acolhedora, sem as mesmas rotinas. Já tinha saudades do ronronar do Pataniscas, das birras dele, dos mimos dele.

Zirinha passava as horas a deambular pelos corredores travando conversa com quem se cruzava, havia dias melhores que outros. Havia dias em que sentia mais saudades – saudades dos filhos, saudades da sua casa, saudades das suas rotinas, saudades do Pataniscas e dos outros bichos. Saudades de dar dois dedos de conversa com os vizinhos, saudades do jardim e do sentimento de liberdade – que outros. Havia dias, longos dias: dias infinitos, sem tempo, sem espaço, sem ter nada que fazer, a não ser deixar passar o tempo que ela ficava a observar, sentada no cadeirão junto à janela da enfermaria.

Esperava ansiosamente pelo dia em que os filhos entrariam pela porta da enfermaria para a irem buscar para o seu lar, tinha saudades das gargalhadas dos netos, do reboliço que provocavam, dos abraços e beijinhos que lhe davam. Tinha essencialmente muitas saudades da vida que tinha antes de ter descoberto que não passava de mais uma idosa a contar para as estatísticas dos idosos que na quadra natalícia são abandonados pela sua família.

Zirinha pensava: não estava assim tão velha e fraca que não fosse capaz de cozer uma posta de bacalhau e umas couves no pote para ela e para o Pataniscas, só queria mesmo o calor da lareira no seu lar, poder sentar-se na cadeira de balançar com o Pataniscas ao seu colo, a ronronar e a pedir mimos. Preocupava-a o facto de ele se encontrar sozinho em casa, ele ficava sempre muito triste na sua ausência e muitas vezes nem comia.

Os voluntários daquele serviço reuniram-se e tiveram uma ideia: e se organizassem um Natal diferente para aquelas pessoas? Tudo o que mais desejavam era tentarem inverter tendências.

Em plena sala de convívio, os voluntários organizaram uma ceia de Natal especial com tudo a que aquelas pessoas tinham direito: Bolo-Rei, rabanadas, sonhos, bacalhau, filhoses. Alegria, boa-disposição, carinho, amor e aconchego.

No entanto, acharam que ainda faltava o ingrediente principal para o toque final: a família; por isso, decidiram ligar para as famílias daquelas pessoas e convidaram-nas a participar na ceia de Natal, sugerindo-lhes que trouxessem um pequeno presente para no final do jantar trocarem.

Inesperadamente, e para alegria dos voluntários e daqueles corações sozinhos, quase todas as famílias aceitaram o convite com agrado. O dia seguinte era esperado com expectativa e ansiedade.

A alegria, a felicidade e emoção daquelas pessoas no reencontro com as suas famílias tocou e inspirou toda a gente, foi talvez a melhor prenda de Natal daqueles profissionais de saúde e voluntários. Eles não queriam presentes, apenas queriam aquele abraço especial, aquele beijo que aquece, o sorriso que alivia a dor da solidão, um pouco de atenção, conforto, amor e carinho: só e tão só uma simples partilha de sentimentos. E tiveram-na…

Por entre lágrimas e cumprimentos, houve uma aprendizagem que ficou: a nossa existência é feita de trocas simultâneas com os outros e de afecto, ninguém respira da solidão. São essas trocas permanentes que nos dão vida.

Zirinha regressou nesse mesmo dia a sua casa e ficou rodeada pelos que mais amava.

O dia seguinte acordou solarengo e num desassossegado frenesim, era dia de Natal. Zirinha andava, de sorriso de orelha a orelha, estampado no rosto, atarefada com o almoço, parecia que – finalmente –, os velhos Natais estavam de volta. A família iria reunir-se como nos bons velhos tempos.

Ia ser um grande presente…

E o cumprir de um sonho antigo.

[Feliz Natal para toda a equipa e seguidores]

PORAna Ribeiro
FONTEEscreviver
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