Um momento…

Sex* no primeiro encontro é na nossa geração das coisas mais normalíssimas que encontras. Não és menos digna só porque acordaste na cama de um desconhecido. Não é uma relação de uma noite que vai moldar o teu carácter.

Não és menos santa do que as assumidas puritanas. Continuas tu. Inteira. O teu corpo ainda te pertence. Confere. Estão aí todos os pedaços. Não mudaste nada. Continuas a fazer a tua vida. A divertir-te. A trabalhar. A cuidar da casa. A desejar ser mãe no futuro.

Na verdade, todas as mulheres preparam-se para o primeiro encontro, depilam-se, vestem uma roupa gira, arranjam o cabelo. Todas. Mas nem todas terminam como tu, apenas porque não aconteceu. E tu não és menos mulher do que elas.

O café abriu-te o apetite. E ele também. Não és virgem, mas também não és puta. Todo o ser humano tem desejos e não é uma atitude irresponsável, demonstrares os teus. Gostaste do sentido de humor dele e da forma como os seus lábios se moviam delicadamente como o bater das asas de uma borboleta, enquanto pronunciava o teu nome e dava um gole no café. Ele gostou da tua inteligência, do sorriso que te dançava no rosto quando ele contava uma piada, da forma como cruzaste as pernas, sedutora. E nem estavas a tentar seduzi-lo.

Uma coisa leva a outra. O desejo intensifica-se. Nem sabes como chegaste àquele carro. A última coisa que recordas é a explosão de cores reluzentes que te penetraram a alma, quando os vossos corpos se encaixaram. Foi magnifico. Não estás arrependida. Continuas consciente. Sabes que foi uma noite. Ele nem vai ligar. Mas tu não estás preocupada. O problema é a escolha que fazes depois do sexo: podes vestir-te e ir embora, mas ele segurou-te, só mais meia hora. Meia hora não te fará amá-lo e querê-lo para o resto da vida. E tu ficas, nos braços do desconhecido. Conversas sobre coisas comuns. Ele beija-te. Enrola o teu cabelo nos seus dedos. Abraça-te. Fala-te da sua vida pessoal. Que giro, a sua afilhada tem até o teu nome. – E o teu nome nem é assim tão comum. E a meia hora passa.

Só mais cinco minutos. Agora vais mesmo embora. Foi uma noite. Foi sex*. Sem sentimento. O combinado foi esse. Não haverá ligações depois disso. Ele apenas quer saber se chegaste bem a casa. Mas tu nem querias que ele se preocupasse com isso. Ele é lindo. Curvilíneo. Inteligente. Engraçado. Nossa, o homem perfeito.

Deitas-te na tua cama e tens a certeza de que querias um filho assim, com todos os seus traços, desde as covinhas que se formam quando sorri, àquele sinal que lhe descobriste no peito. E tu vais lembrá-lo para sempre. Porque tu escolheste ficar, e agora sabes. A meia hora era desnecessária. Mas ele vai-te lembrar também. Meu Deus, vai mesmo. Da forma como o tocaste. Os arrepios que lhe causaste. O turbilhão de sensações que despertaste sem qualquer intenção. E agora tu sabes, estais marcados para sempre. Mesmo sem ligações, mensagens ou encontros. E tu sabes ainda, que o tempo é precioso e tu não irás desperdiçá-lo novamente, porque sabes que a vida é feita de momentos. Mas um momento de meia hora, pode ditar a tua vida para sempre.

PORLetícia Brito
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