Um espaço para conversar!

Há um espaço para conversar.
Dois bancos, um frente a frente inevitável.

Sinto a brisa a aconchegar-se no meu casaco de malha castanho, velho, intemporal. Percorre-me desde o início, num tremor deliciosamente embaraçoso e eu aqueço as mãos entre fios de lã.

Sinto o frio, aquele que deixa o nariz vermelho e os olhos reluzentes. Sinto-te a ti, sentado do outro lado a perscrutar os meus sinais.

A agitação das sextas-feiras passa por nós, varrendo as ruas, despindo os jardins, com a mesma intensidade com que aperto as mãos nestes bolsos largos, cheios de dúvida e maresia.

Ao fundo, ouvem-se as gaivotas a tremer por entre nuvens quebradiças. A leveza das águas, a areia molhada, o sol posto nestes rostos silenciosos e comprometidos.
Não se ouve nada a bulir!

De repente, estou num lugar hirto e desperto, como se o mundo se calasse para ouvir o bater dos nossos corações, a intensidade de cada respiração.

Como se o mundo se calasse para ouvir aquilo que ambos sabemos não ter para dizer.
Às vezes é assim…

Sentimo-nos em conformidade com a vida e com os outros. Sentimos que, de repente, a natureza compreende o que é anti natura, mas humano! E que estamos alinhados com os astros, que giramos em torno da órbita certa!

Somos todos um pouco assim: os seres exóticos de uma espécie por si só ousada.

E a conversa ainda vai a meio.

Nenhuma palavra, nenhum gesto, nenhum movimento.

Nós, o resto e um olhar.

Vejo em ti o mundo, dentro de ti o que não consegues ver, nem ouvir, nem sentir, nem fazer. A imensidão de toda a complexidade, de uma forma simples, à volta desses círculos perfeitos com que tentas saber mais de mim do que eu.

E sei que sabes. Porque os meus olhos não falam, mas estão abertos e dizem tudo. E eu sei bem como dentro de ti descodificas a mensagem de que sou feita.

Nós, o resto e um olhar e o tempo todo para chegar ao fim da discussão telepática. O fim é o ponto de encontro, naquele lugar, o mesmo do costume, onde o vento passa por nós, onde sentimos o frio e a tristeza nos pelos encrespados. O fim começa quando, no meio dos reflexos, libertamos o que nos preenche e deixamos que o vento leve de arrastão o que nos incomoda.

E é tanta coisa que estremeço por dentro e reviro os olhos.
É tanta coisa que a conversa termina e o rebuliço se instala.
É tanta coisa que no meio de tanto e tão miseravelmente pouco nos esquecemos que há um espaço para conversar!

PORAndreia Moreira
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