Sou o que sou, um bicho do mato!

Escrevo porque me liberta do peso de sentir tanto e escrevo muito porque te amei tão intensamente…sabes lá…Queria dizer-te tanta coisa…na verdade queria muita coisa. Muita coisa contigo. Muita coisa de ti. E muito mais de mim mas sou o que sou. Não me lembro de sentir contentamento suficiente ou acomodação passivamente. Sempre fui ambiciosa e destemida, sozinha e decidida. Sempre quis tanto porque sempre tive tão pouco. Desisti de ti porque tu continuavas a ser pouco para mim mas ainda assim amo-te porque foste tudo o que já tive.

Desde que me lembro como gente, lembro-me de ter de conquistar, de ter de sobreviver. A vida obrigou-me a isso, as pessoas que entraram na minha vida obrigaram-me a isso. Sou o que sou, um bicho-do-mato, sempre alerta e desconfiada. Não é qualquer um que permito que se aproxime, não é fácil conquistarem-me mas acredita, no momento em que isso acontece, não tenho reservas nem limites para me dar, para amar. Tu tiveste isso tudo. Tu desperdiçaste isso tudo. Estar contigo fez-me lutar imenso para me manter fiel a mim mesma e aos meus princípios mas para seguir aquilo em que acreditava naquele momento, tive que ignorar os meus instintos, e os instintos são tudo o que um bicho-do-mato tem para se proteger.

Sabes lá o quanto lutei contra isso, sabes lá o quanto tentei. Sabes lá o tempo que demorei a tomar uma decisão. Sabes lá quantas vezes pensei em fazê-lo antes de o fazer. Sabes lá quantas oportunidades te dei antes de me afastar de ti de vez. Foste mais um porque foste mais uma causa perdida, uma luta inglória mas também foste o único porque contigo senti amor e tive uma trégua da vida, fui feliz. Contigo do meu lado tive um sono tranquilo pela primeira vez. Aconchegados no nosso cantinho acreditei mesmo que não precisava de me defender de ti e que não precisava de continuar a lutar sozinha. Ao sentir-me amada pela primeira vez percebi que se ser bicho-do-mato não me deixava mais perto da felicidade então tinha que mudar. E mudei. E deixei os meus instintos de lado. E deixei que cuidasses de mim e me lambesses as feridas da guerra que tinha sido a minha vida até então.

Sabes lá o quanto foste importante. Sabes lá o quanto me deslumbrei contigo. Sabes lá o quanto me custou ver-te a afastares-te de mim aos poucos. Sabes lá o quanto me confundiu a tua instabilidade. Sabes lá os danos que fazias sempre que entravas e saías da minha vida quando te apetecia. Sabes lá o quanto foi difícil para mim não me perder cada vez que te perdias de mim. A minha decisão de ser eu a afastar-me de ti de vez não significou orgulho e o meu silêncio agora não significa indiferença. Se tivesses realmente sentido o que eu senti, se tivesses feito o esforço de me perceberes, agora saberias que só te deixei ir por cansaço. Cansaço de te teres tornado mais uma luta na minha vida. Cansaço por estarmos sempre a medir forças um com o outro. Cansaço de me forçar a sentir como suficiente o pouco que me davas. Cansaço por te ter mas não te ter.

Por isso amor, vou continuar aqui no meu mundinho a lutar sozinha como sempre o fiz, sem medo como sempre foi. Enquanto isso espero que longe de ti e longe de tudo, a vida leve embora o meu amor por ti. Espero pacientemente que o tempo faça o seu trabalho e te torne em apenas mais uma das minhas tantas feridas porque por causa de ti a minha guerra tornou-se ainda mais difícil e hoje sou mais bicho-do-mato que nunca.