Tudo o que eu preciso é de um abraço teu!

Há dias flácidos e amargos como aqueles dias curtos, escorregadios e frios de Inverno, em que o que mais preciso é de um abraço teu. Aquele abraço apertado, forte e intemporal que do nada parece que cura tudo. Há dias em que nada faz sentido, em que tudo parece ter-se transformado num eterno puzzle onde nenhuma peça – por mais esforço que faça – se encaixa. A vida é um puzzle onde se encaixam pessoas, momentos, detalhes e emoções. É uma luta constante para que todos os dias cada peça se consiga encaixar na perfeição no seu devido lugar, mas nem sempre isso acontece, os puzzles da vida também são feitos de contratempos, que fazem com que determinadas peças erradas se encaixem nos sítios mais inóspitos para preencherem o vazio provocado pela ausência das peças certas.

A vida é um puzzle em permanente construção e aperfeiçoamento, e é quando várias peças erradas teimam em encaixar-se nas encruzilhadas da vida que surge a necessidade de aconchego. De procurar alento, conforto e o rumo certo para a nossa existência. Diz que hoje foi um desses dias, acordei sem vontade de continuar depois de uma noite de insónias tremenda onde na falta de sono aproveitei para reflectir e por ideias em ordem, aproveitei para viajar pelos erros cometidos no passado e no presente – tentando fintá-los no futuro mais próximo – e pelas escolhas mais acertadas e felizes. No silêncio de uma noite longa ri e chorei sem tempo, lembrei-me dos dias mais felizes, aqueles dias solarengos e quentes ao teu lado, sem ter que pensar em nada, sem ter que tomar decisões nem fazer escolhas difíceis. Lembrei-me dos intensos olhares que trocávamos dias a fio e noites sem fim, conversando sem ter que dizer palavras, através dos teus olhos conseguia ver tudo de ti e encontrar tristeza e felicidade, angústia e desilusão. Através dos olhos fomos-nos descobrindo um ao outro. Lembro-me dos nossos beijos entrelaçados, repentinos, intensos e sôfregos, saboreio o aroma doce e salgado, áspero e macio dos teus lábios como o vinho mais antigo.

Acordei com a alma em ebulição, a boca seca e o corpo dormente como se inesperadamente a minha existência se resumisse a um mero esboço de mim própria, revia-me na palidez com que olhava para o exterior através da janela mais baça da casa. Não sabia o que fazer, que caminho tomar, com quem falar, levantei-me, vesti o meu roupão salmão em seda, fiz uma chávena de café e sentei-me à janela, fechei os olhos e deixei-me envolver pelo sabor afrodisíaco da bebida e o vapor quente libertado e ouvi o vento e os pingos de chuva a caírem no asfalto, talvez os meus pensamentos se transformassem numa melodia e acabassem por falar e me dar soluções.

Fiquei por ali numa manhã infinita de um resto de esperança, ouvi a tua voz do nada como tivesses mesmo alguma coisa importante para me dizer, a voz mais conselheira de que me lembro de ter memória. Não estavas ali junto de mim, abraçado a mim, como era teu hábito fazeres sempre que estávamos juntos; mas eu procurava-te à mesma. Procurava aquele abraço teu que mais ninguém me sabia dar, procurava o aroma dos teus braços envolvidos no meu corpo, procurava essencialmente ter-te ali ao pé de mim nem que fossem uns meros milésimos de segundo. Tempo partido e repartido, dividido e partilhado, ousado, mordaz, sofrido. Amado.

O meu coração desassossegado há muito que me dizia que te devia ter amado mais, devia ter ousado mais, arriscado mais, procurado mais e (re)inventado mais. Faltou reencontrar-me e essa falta de encontro imaginado transformou-se em mais uma peça do puzzle da minha vida, encaixada no sítio errado. Afastou-me de ti, fez-me perder de ti. E agora fazes-me falta. Tudo o que eu preciso é de um abraço teu que me faça renascer, viver e (re)viver, que acorde a parte de mim que levaste contigo. Que volte a trazer os dias mais felizes, eternos e inesperados. Aqueles dias recheados de amor e paixão assolapada e fulminante que me devolverão à vida e que agora são uma das falhas mais sentidas.

Preciso de ti. E de repente, o telemóvel toca e vejo uma mensagem tua que traz apenas uma palavra: Perdoa-me.

Do nada, a chuva de um dia triste, tempestuoso e sem rumo, traz-te de volta. Vejo-te a correr desde a janela, no pátio. Entras em casa, à pressa, sem tempo para contar os degraus e metros que nos separam. Quando menos espero, a porta do quarto abre-se sem eu ter tempo de questionar nada.

Ficas ali, imóvel, a observar-me com o amor e a paixão que nos une desenhado nos teus olhos; abres os braços:

– Abraças-me?

Corri para ti, com o maior sorriso de que há memória, sem olhar aos passos dados nem a nada do que me rodeia.

O tempo pára junto de ti. Sempre soube.

PORAna Ribeiro
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