Tornei-te em mim!

Olho para ti, e sei bem quem tu és, reconheceria essa figura em qualquer parte, olho para ti como olho para um espelho, tornei-te em mim.

Descobri-te miúdo, não foi a tua beleza que me cativou, embora te ache lindo, não foi a tua madura personalidade ou o teu carácter exemplar, sempre foste um casmurro em aprender, talvez por isso chegaste à mim tão cru, tão nu.

Fiz de ti um projecto, deverias ser perfeito, disse-te que era para ti, que era a única alternativa, confiaste, e tornei-te em mim.

Ainda me lembro das tuas investidas, tão singelas, tão queridas, de reivindicar quem eras, mas eu já te conhecia tão bem, porque já eras eu, e como dados, caiam-te os argumentos, um a um, ate não restar nada, alem dessa parte minha, por onde eu te rendia.

Foi tão calculista a forma que te amei, foi tão desesperada a forma que permitiste, que me espanta este amor que carrego, irremediavelmente cliché apaixonei-me pelo meu monstro, pela minha criação

Olho para ti, e sei bem quem tu és, reconheceria essa figura em qualquer parte, olho pra ti como olho para um espelho, tornei-te em mim

E quem sou eu? Sou aquela que não perde uma discussão porque tem a língua afiada demais, culta demais, e falsamente modesta demais,

Que te destruiu os ideais que trazias em troca de princípios narcisistas e anti sociais.

Que te espanta com filosofia barata e arte falada, pela qual caias de amores, tinhas a pessoa perfeita dizias tu, tinhas que ser perfeito também querias tu.

Hoje meu amor, és um homem perfeito, mas desculpa, és um homem perfeitamente estragado, sabes que tive boas intenções, mas eu arruinei quem eras,

Hoje já não te tenho, porque já não ganho argumentos, e já disse tudo de impressionante que sabia dizer, tornei-te em mim, e perdi-te em mim…

Olho-te nos olhos e vejo a minha garra e frieza, a minha sede de lutar pelo que acredito, certo ou errado, o importante é confundir los, o importante é convencer los, é ganhar , então como, como irei lutar comigo? Como irei discutir comigo? Como irei amar-me sem ti para pores um freio nas minhas noites de depressão e pouca fé?

Tu já não existes, tornei-te em mim…e não gosto do que vejo.