The Scars Remind Us That The Past Is Real!

Viver no presente não é fácil. Pensar no futuro também não. Vivo cada dia com as imagens do meu passado mesmo em frente dos meus olhos. Não é o presente que vejo, mas sim as cicatrizes formadas pelo meu passado, cicatrizes essas que nem sempre são visíveis. O meu corpo é uma tela com marcas que provam e testemunham a minha guerra. A guerra que tenho de travar todos os dias com a minha própria vida, com os meus fantasmas e comigo própria. Mas, diferentemente do meu corpo, o meu coração carrega cicatrizes e marcas de guerra que nunca fecharam ou sararam. Como se tivesse sido cortado e aberto vezes e vezes sem conta, mas eu apenas coloquei um penso rápido para disfarçar a ferida.

Por muito que a minha aparência tenha mudado ao longo dos anos, a minha mágoa ainda aqui está. Lembro-me de desejar todos os dias que não tivesse de voltar a casa. Odiava a minha casa, e ainda odeio. Há quem diga “lar doce lar”, eu nunca soube o verdadeiro significado disso. A nossa casa, por vezes, consegue ser um inferno muito maior do que a escola. O único lugar que nos consegue transmitir calma pode ser o lugar que mais nos faz sofrer. É onde choramos noites sem fim, onde, desesperadamente, tentamos desistir da vida.

Costumo dizer que a esperança é o que mais me faz sofrer, porque, em toda a minha vida, a minha consciência dizia “Não. Esquece. Não vai acontecer. Esquece!” mas, o meu coração esperava sempre e a esperança não se afastava dele. Desilusão após desilusão é uma das minhas definições de vida. Dói tanto viver que o nosso corpo se torna dormente. Já estamos tão habituados a sofrer que nem nos apercebemos que é contra nós que o mundo está.

Mas, apesar de todo o sofrimento, e, apesar de todo o nosso corpo dizer que já está farto de viver e que só quer ser esquecido, a nossa minúscula e inconsciente esperança ainda aqui está. Por isso é que alguns de nós ainda estão vivos.

Por isso é que pesquisamos textos depressivos e desabafamos, anonimamente, no Tumblr, porque no fundo queremos ser compreendidos por algo ou alguém, mesmo que não diretamente. No fundo, o nosso coração e a sua esperança inconsciente estão sempre a gritar, desesperadamente, por ajuda. Nós, no fundo, nunca desistimos de viver, de sorrir, de amar e de ser-mos amados. Acontece, apenas, que a dor, o sofrimento e o desespero são demasiado intensos para nos aperceber-mos disso. Numa tentativa de aliviar, nem que seja muito pouco, toda essa tortura, muitos viram-se à droga, bebida, sexo, tabaco, erva, escrever, música, dormir, medicamentos e à própria morte. Também há quem se corte, quem faça tatuagens e quem arranque cabelo. Existem muitas formas diferentes de tentar aliviar o sofrimento, mas, por vezes, nada disto tem resultados duradouros.

A vida é uma merda? É! Não vou negar nem tentar argumentar contra isso. Não vou inventar desculpas para tentar continuar a sorrir. Era melhor nunca ter nascido? Era! Pelo menos nunca chegava a conhecer e a ver o inferno que é este mundo e o sofrimento que ele me dá. Porquê continuar a viver? Porque não acabar com tudo e pronto? Para quê tanto esforço? Porque, apesar de tudo, e, apesar de eu própria duvidar disto, há sempre quem precise de nós neste mundo. Eu só ainda não acabei com tudo isto, porque não consigo ser suficientemente egoísta a ponto de aliviar a minha dor e a minha tristeza e “oferecê-la” a todos os outros que aqui ficam. Tecnicamente, esta vida não é só minha, esta vida é minha e de todas as pessoas com quem eu partilho o meu dia a dia. Sou eu quem tem a maior responsabilidade dela, mas, bem lá no fundo dos fundos, tenho noção que não estou nisto sozinha.

Cada um luta com os seus próprios demônios. Cada um sabe o que sente todos os dias e, principalmente, todas as noites. Todos nós lembramo-nos do nosso primeiro corte e da sensação que ele nos deu. Cada corte no nosso corpo transmite uma luta diferente e uma história diferente, mas, todos eles com a mesma base, tentar aliviar a vida. Não só os cortes, mas tudo o que fazemos para tentar “esquecer” a vida nos relembra o passado e as nossas lutas. As nossas cicatrizes lembram-nos de que o passado é real.

PORNídia Valente
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