Terminei o que começaste.

“No fim eu percebi, que não percebi nada.

Sabendo eu o teu historial, podia imaginar que o provável seria ferires os meus sentimentos, mas fui criança, ingénua e acreditei que poderia ser possível. A minha necessidade de atenção, fez com que caísse na tua teia e levasses o que eu tinha de melhor: alegria de viver. O meu corpo caiu por terra, sem vida, no momento em que, assim, eu decidi.

Quarenta anos de união…e maus tratos. Foste o meu sonho de adolescente e o meu pesadelo da vida adulta. Ainda assim, foram tantos os indícios, que só mesmo a falta de experiência me faria cegar ao ponto de continuar a regar a relação. Conseguiste que tudo fosse tão mágico. Naquela época eras tudo aquilo que eu queria (eu e todas as outras raparigas). Lembro de me sentir uma sortuda por me teres escolhido e tratares tão bem. Mas afinal, a armadilha estava a ser preparada e eu, que caí tão bem nela. Lembro de como tanto desejámos um filho e quando fiquei grávida do primeiro, foi o melhor dos nossos tempos. Queria ter mais do que um filho contigo, mas de um momento para o outro deixei de querer. Sinceramente nunca percebi se mudaste ou se, no fundo, sempre foste assim.

Até que um copo faz com que eu sinta a bruta força da tua mão na minha face. Um simples copo. Bati com a cabeça no armário, por perder o equilíbrio. Não tive qualquer reacção física ou psicológica, nem tive tempo de falar, se conseguisse. De seguida saiste porta fora e o nosso filho de quatro anos chorava e gritava por ti. Não reagi. Limitei-me a encostar ao que estava mais próximo de mim, e deixei-me deslizar até ficar sentada no chão. Perdida no tempo e psicológicamente longe daquele choro. Confusa, sim. Também eu naquele momento precisei de quem me pegasse ao colo, de quem me explicasse o que acabara de acontecer.

Após um hora sentada no chão, peguei no meu filho e fui para casa da minha mãe. Expliquei-lhe a situação. Na sua opinião, tu estavas só cansado de um dia de trabalho. Decidi colocar essa justificação na minha cabeça, aceitar e voltei para casa. Entrei e lá estavas tu à minha espera. Correste na minha direcção… “achei que te tinha perdido! Amo-te muito amor. Desculpa!”, disseste. “Sim amor. Claro que desculpo, estavas só cansado. Já passou”, respondi. Abraçámo-nos e o dia seguiu “igual” a todos os outros, mas eu…eu já não era a mesma. Durante muito tempo crucifiquei a minha pessoa, por pensar que o meu estado de espírito estava a destruír a nossa relação. Estúpida de mais para ver a realidade.

Tivemos o segundo filho. Uma menina linda. Lembro de estar com ela no colo, rodeadas de toda a família feliz, olhar para ela e ter pena pelo lugar onde se veio meter. Lembro de muita falsa felicidade. Um ano depois. As crianças estavam na escolinha e eu chegava a casa com as compras na mão. Tu estavas à porta da cozinha a olhar para mim. Aproximei-me para te cumprimentar e pousar as compras. Perdi os sentidos. Acordei horas depois, numa cama de hospital. A enfermeira que me viu acordar apressou-se a ir ter comigo e perguntou como me sentia. Na verdade eu não sentia nada, somente um vazio. Questionou se queria que chamasse o meu marido que estava na sala de espera “extremamente preocupado”, disse ela. “O meu marido?!”, perguntei. “Sim, ele disse que a senhora chegou a casa cheia de compras, escorregou e bateu com a cabeça.” Senti-me impotente, infeliz, no meu mundo silencioso. Não queria acreditar no que estava a acontecer. “Não! Está mais alguém na sala de espera?!”, perguntei. “Sim, a sua mãe.” Pedi-lhe, então, que chamasse a minha mãe, que não percebia o porquê de não te ter chamado para perto de mim.

“Não o quero ver mais, tens de me ajudar!”, pedi. “Mas filha, estás só assustada. Foi uma queda muito grande.”, dizia ela. “Mas tu acreditas nele?!” Desesperei.

Gostava de afirmar que me livrei de ti, mas não consegui. Amava-te de mais. Desculpei-te uma vez mais e depois dessa vez, desculpei outras mil. Apesar de não estar feliz amava-te e acreditava ser possível voltares a ser o que eras. Obrigaste-me a ter mais dois filhos. Não estou a mentir. Obrigaste-me. E assim foi, mas não desejei nenhum. Para mim, eram fruto de muito ódio. No meu subconsciente eram somente teus filhos. Nem os nomes escolhi e tu também não parecias preocupado com isso. Entrei em depressão e chegou a um ponto que me batias à frente dos meus filhos. Todos os dias eu estava ciente que ia levar porrada. Deixei de ver as minhas amigas e a minha mãe. Tu obrigavas-me a inventar desculpas para que elas não vissem o meu estado. Pois aí, já não conseguirias encontrar desculpas. Mas ainda hoje me pergunto…porque não vieram elas ter comigo?

Agora é tarde de mais. Eu desisti. Decidi que, já que não ía aguentar mais tempo de tão débil que estava, não queria morrer pelas mãos dele. Terminei o trabalho dele com as minhas próprias mãos. Estou finalmente em paz.”

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA É CRIME! NÃO FIQUES CALADA!


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