Ter-te a ti ou ter-me a mim?

''Se te pensar, penso-me em suma. E só encontro a existência de uma subtracção imediata. (...) Uma coisa é ter-te a ti, outra é ter-me a mim. Vamos ter-nos, aos dois, sem impedimentos ou tensões. Vamos ter-nos. Tu. Eu. Sem e.''

Mergulhando no domínio do meu profundo ser e nos meus mais obscuros pensamentos, os que não permitem entrada a ninguém, percebo sozinha, quieta mas só por fora, sossegada mas só visivelmente, feliz mas só na mentira, que se te tiver não me tenho e se me encontrar não te encontro.

Se fores tu, não sou eu, se for eu, não serás tu. Se te procurar vou-me perder e se não me perder é porque não te procurei. Se te visualizar, de todas aquelas vezes que me passas não pela frente mas por dentro, quando roubas um pedacinho de paz que quero tanto achar e manter, visualizo-te a ti e não a mim. Quando me visualizo a mim, quando me examino e analiso, quando me ameaço e proíbo, quando luto interiormente, quando determino e defino, quando evito, acredito, suspiro e me agrido. Quando falho e choro, quando venço e grito vitória. Quando sou eu comigo expectante e nada é mais forte que isso, não passas tu… Não passas, não vens e não ficas. Não seguras, transformas ou acomodas.

Destabilizas, imobilizas e bloqueias-me as veias. Dominas, geres e feres. E ouse alguém vir dominar vidas alheias. Ouse alguém vir dominar uma vida que somente a mim me pertence. Ouse alguém querer interromper a independência que se vive, ainda que ironicamente falsa. Se te tenho divido-me. Parto-me, rasgo-me, solto-me. Se me tenho sou só uma peça sem graça, sem lugar onde encaixar, sem encaixe onde entrar, sem sitio onde ficar e sem estimulo a libertar. Não que te respire ou te exija, mas necessito. Tão vulgar como uma necessidade. Uma necessidade de de apego sem pegar e não de pegar sem apego. Uma necessidade estabilizadora, apaziguadora que sossega e me transfere para um período de acalmação, ainda que acelere o coração, desregule sentimentos e despolete sensações.

Se te pensar, penso-me em suma. E só encontro a existência de uma subtracção imediata.

Uma rigidez que apela ao afastamento, à sublime mágoa ou tristeza de não se concretizar algo que se quer e se sente, não que se deve e tem. Não que se deva sem promessas e juras. Se te inspirar para bem dentro de mim desaponto-me sem critérios. Cedo e desço a onde jamais poderei descer, salto e caio onde não consigo estar, pois jamais haverá o dia em que alguém me desvalorizará.  Olho-me ao espelho, reflicto, sinto e minto. Engano-me, distraio-me e idealizo. Supervisiono tudo… Detalhes, pormenores e as mais ligeiras e insignificantes migalhas que significam a diferença. Quando te olhas a ti o que lês? O futuro? O passado? Ou o presente, que simboliza tudo? O futuro só o apanhas quando se torna presente e o passado nunca mais o terás senão em nostalgia pura e dura pois o tempo é irreversível e impossível de combater.

Se te ter a ti implica não me ter então não quero ter uma vida que se transponha à minha. Se não me ter justifica ter-te então que assim seja porque para insegura, instável e desconfortável já basta a vida na sua genuína forma de haver. Nada mais amplo que vidas completas… Completamente incompletas. E escrevo apenas porque letra a letra revejo, revivo e consumo mil palavras que ditas seriam um pequeno, enorme, desastre.

Uma coisa é ter-te a ti, outra é ter-me a mim. Vamos ter-nos, aos dois, sem impedimentos ou tensões. Vamos ter-nos. Tu. Eu. Sem e.

PORMarta, Alentejo
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