Temos de seguir os nossos sonhos!

Lá estava ela presa nas suas memórias. Naquela saudade do passado, que não regressa mais. Sentei-me junto dela e perguntei-lhe se queria algo. Disse-me que não, que o que queria não podia ter. Pedi-lhe para me falar da sua vida, ela sorriu, como se tudo o que viveu passa-se naquele momento pela sua mente. E provavelmente passou…

“Tinha eu dezoito anos, quando conheci o meu verdadeiro amor, aquele que só existe uma vez na vida. Eu estava triste e desanimada, a minha mãe não tinha emprego e as colheitas do meu pai não estavam a dar muito. Estávamos a passar por algumas dificuldades, e talvez por esse motivo ele apareceu no meu caminho. Eu ia buscar a minha irmã mais nova à escola, como fazia todos os dias por volta das cinco horas da tarde. Tinha vestido, um vestido novo que a minha mãe me tinha comprado quando as coisas ainda estavam melhores. E ia à pressa porque estava atrasada, como sempre andava. Eu ia a correr, e ouvi uma pessoa gritar: “Menina, menina!” Olhei para trás e verifiquei que era para mim, “Perdeu o lenço” disse-me ele. Não consegui dizer nada, fiquei como paralisada.

Continuei a olhar para os seus olhos castanhos- nunca uns olhos me atraíram tanto como aqueles- Sorri e disse “Obrigado”. Ele era alto, forte, cabelo castanho e o sorriso mais bonito que eu já vi. Perguntou-me se eu me importava que ele me acompanha-se respondi que não e ele foi comigo até à escola. Fiquei a saber que se chamava Carlos, e que se tinha alistado para o exército,episódio pelo qual os pais nem queriam ouvir falar, mas que era o sonho dele. “Temos de seguir os nossos sonhos,certo?” Disse-me.

Apanhámos a minha irmã e ele levou-nos até casa.

Chegámos à porta e a minha irmã entrou, ele sorriu-me e disse-me que tinha gostado muito da minha companhia, e que tinha a esperança de me ver antes de partir. Não disse nada, não consegui, sempre odiei despedidas, e aquele momento parecia-me uma, portanto limitei-me a sorrir, sorriso que foi correspondido. Entrei e posso afirmar que nessa noite não dormi nem um minuto. Nos dias seguintes não o voltei a ver.

Após duas semanas começaram a chegar autocarros para levar os jovens que se tinham alistado. Eu ia a passar junto a estes, para me dirigir à escola quando o vi. Ele nada disse, limitou-se apenas a olhar, como se quisesse gravar a minha imagem…

Passado dois anos, estava eu em casa a ajudar a minha mãe a fazer o jantar quando batem à porta, o meu pai foi abrir, como era hábito na nossa aldeia. Os chefes da família é que abrem a porta. Ouvi vozes e uma longa conversa. Passado alguns minutos o meu pai chamou-me, dirigi-me à sala e verifiquei que o meu pai estava a falar com um rapaz, o qual estava de costas para mim. Ele voltou-se assim que ouviu os meus passos e o seu olhar percorreu-me, fiquei presa a ele como tinha acontecido da primeira vez. “Este jovem veio pedir-me a tua mão em casamento”,disse o meu pai. Ele sorriu-me e eu retribui o sorriso. “Disse-me ainda que ter-te como mulher era um sonho”,continuou o meu pai. “Temos de seguir os nossos sonhos,certo?” Disse ele.

E podes ter a certeza que ele seguiu o dele minha querida, ele viveu o sonho dele até à vinte anos atrás. Quando partiu naquela tão desejada batalha. Um dos sonhos dele era esse, sabes, morrer por um motivo, ele sempre pensou que morrer de velhice, era uma perda de vida, e o ultimo sonho dele foi concretizado. Ele morreu por um motivo. Desde esse terrível dia,vivo numa ansiedade,queria estar junto dele, como ele sempre esteve junto a mim. Em todos os momentos minha querida, mesmo longe.”

Acariciei-lhe a mão com rugas do tempo e da idade e perguntei-lhe “Teria mudado alguma coisa?”

Ela abanou a cabeça negativamente e a sorrir, olhou de novo pela janela, para o pôr do sol e disse-me “Ele cumpriu também o meu sonho,sabes, ele fez-me uma mulher feliz!”