Sopa de letras!

Lembro-me dos meus tempos de escola. Eu era diferente dos meus amigos, tinha a mania de interiorizar tudo e de atribuir significados às coisas mais insignificantes. Como quando íamos almoçar à cantina. Os meus amigos comiam simplesmente canja com letrinhas. Eu escolhia as letras.

Não levava um prato qualquer: debruçava-me sobre as letras à superfície e escolhia o prato que mais combinações me permitisse fazer. Era importante que aquela canja tivesse a combinação de letras da pessoa que estava apaixonado para que o pudesse escolher imediatamente. Quando pousava o tabuleiro, sentava-me, debruçava-me novamente sobre o prato e escolhia as letras para a borda do prato. Depois ordenava-as: um B, um E, um A, um T, um R, um I e um Z. B-E-A-T-R-I-Z. Só depois, ajeitando o lugar e olhando novamente para a combinação perfeita, começava a comer.

Os meus amigos comiam canja com letrinhas. Eu comia canja com a Beatriz, com a Clara, com a Daniela, com a Joana, com a Rita e com outras quantas paixões da minha adolescência. Comia a canja com a Beatriz. Comia o rancho com a Beatriz. Trincava a maça e olhava para a Beatriz. Levantava-me, devagar, para que a Beatriz não perdesse as vogais, e entregava o tabuleiro com a combinação legitimada. A Beatriz permanecia comigo do principio ao fim, até que entregasse o tabuleiro. Só as funcionárias da cantina sabiam das minhas paixões. Quem é a Beatriz, quem é a Beatriz?, perguntavam. E eu baixava a cabeça e sorria. Os meus amigos comiam canja com letrinhas. Eu comia canja com a Beatriz.

Ainda hoje, quando a refeição é canja, escolho minuciosamente as letras. Sento-me à mesa, com a televisão ligada, e como canja com a Beatriz, com a Clara, com a Daniela, com a Joana, com a Rita e com outras quantas paixões falhadas. Os nomes caem do prato e as vogais acabam-se. Os meus amigos comem canja com letrinhas. Eu como canja sozinho.