Solidão…

Solidão?

“A solidão é um sentimento no qual uma pessoa sente uma profunda sensação de vazio e isolamento. A solidão é mais do que o sentimento de querer uma companhia ou querer realizar alguma atividade com outra pessoa não por que simplesmente se isola mas por que os seus sentimentos precisam de algo novo que as transforme.”
Vou contar uma pequena história de um rapaz solitário.

Era uma vez um rapaz feliz, aproveitando a sua inocência, proveniente de uma aldeia, a certo dia ele teve de se mudar para a cidade, devido à escola.

Veio para a cidade e a partir desse momento é que tudo começou a descambar.

Sempre tinha sido um rapaz forte, nunca demonstrava ter problemas, nunca demonstrava estar a sentir o que sentia. Até que chegou um dia em que tudo mudou!

Ele perdeu alguém importante, perdeu alguém que sempre amou bastante e mesmo tendo perdido continuará sempre a amar. Ele começou a mudar aos poucos e ninguém se apercebia dessa mudança.

Já não conseguia sorrir sem ser forçado, já não conseguia manter uma conversa durante cinco minutos, não conseguia estar rodeado de amigos e ao mesmo tempo sentir-se bem. Queria desaparecer, fechar-se no seu mundo e o seu mundo durante anos fora o quarto.

A sua vida tornou-se numa prisão mental, em que a única saída era uma ajuda profissional. Mas não teve coragem de a procurar.

As suas notas começaram a descer, a sua incapacidade de executar bem as tarefas era notável, as suas relações com amigos e família tornaram-se impossíveis. Parecia outra pessoa..

Começou a ouvir músicas estranhas, onde o tema predominante era a morte. Parecia que queria que o seu fim chegasse.

Certo dia, fui ter com ele, e enquanto ele tinha ido buscar algo para comermos, eu reparei num caderno de capa preta que ele tinha em cima da mesa. Perguntei-lhe o que era, e ele sem vergonha disse, é aqui que desabafo todas as minhas, queres ler? Eu, com um pouco de receio, disse que sim.

E nesse momento entendi que a sua situação era muito grave, nesse caderno tinha as mais imagináveis coisas escritas. Desde um simples gozar das pessoas, cortes, a uma tentativa de suicídio. E aí entendi que o rapaz que aparentava ser forte, era somente aparência.

Percebi o porquê dele ter vergonha de mostrar os braços, braços esses que estavam cobertos de cortes e cicatrizes, o porquê dele não confiar nas pessoas, de não se sentir seguro de si mesmo.

As pessoas têm atitudes às quais esquecem quais seriam as futuras consequências para ele. Gozavam com os seus problemas, riam-se de quando ele fazia algo de mal.

E eu perguntei-lhe com um aperto no peito, a quanto tempo te sentes assim? Respondeu ele, com o rosto coberto de lágrimas.. Já há quase 10 anos.

Nesse momento a minha reação foi automaticamente dar-lhe um abraço e dizer tem calma, eu vou estar sempre aqui para ti.

Os dias seguintes estava sempre com ele, não o deixava ir abaixo. Parecia tudo estar a ficar bem, ele sorria, conversava, brincava, parecia alguém diferente. Mas até que chegou um dia em que íamos estar juntos mas ele não apareceu. Estranhei sim, admito que estranhei, tentava ligar-lhe, mas não atendia.

Perguntava às pessoas na escola se o tinham visto, mas ninguém sabia dele. Fui para casa a pensar o que poderia ter acontecido, sentia que algo não estava bem e foi ai que decidi voltar tudo para trás, até à casa dele.

Quando cheguei ao fundo da rua, estava uma ambulância do INEM, desatei a correr para entrar, mas fui barrado por um polícia. Fiquei em pânico, não sabia o que fazer. Teria ele se suicidado? Teria ele feito algo? Que seria? A ansiedade consumia-me por dentro. A incerteza da situação deixava-me cada vez mais assustado enquanto os minutos passavam. Até que me deram uma explicação.

Ele tinha-se cortado de tal maneira que acabou por perder bastante sangue, que foi parar às urgências, pedi ao senhor agente que me levasse até lá e assim o fez.

Quando lá cheguei, estava ele acamado, cheio de ligaduras nos braços, aproximei-me e perguntei-lhe com a cara lavada em lágrimas, o que aconteceu? E foi ai que ele me deu o seguinte texto.

“A solidão é algo que predomina na vida de certas pessoas. Até mesmo aquelas que aparentam felizes, que estão rodeadas de pessoas. Mesmo no meio da multidão uma pessoa sente-se sozinha. É consumida psicologicamente com os seus problemas. É muito mau a pessoa não se conseguir abstrair dos seus problemas. Ela habitua-se a guardar tudo para si, gera uma espécie de muro de defesa, torna-se frio e se alguém lhe pergunta se está tudo bem, ela simplesmente sorri e diz que sim. Ela vai para casa, sempre solitária, apenas ela e o pensamento. Passa bem o dia, ri, fala, brinca mas no momento em que chega a casa ela simplesmente vai-se abaixo. Chora e chora com o passar da noite.

Quando chega o dia seguinte ela acorda, coloca um sorriso no rosto e aguenta mais um dia. Assim se faz a rotina de uma pessoa consumida pela solidão. Até ao dia que ela não começa a aguentar e começa a fazer coisas que lhe magoam, como por exemplo um simples corte. Eu quero te agradecer por toda a ajuda que me deste, mas não consegui aguentar, a caminho de casa, roubaram-me o último objecto que tinha de uma certa pessoa, tinha pedido por favor para não o fazerem e começaram-me a espancar. Não aguentei, desculpa.”

Mandaram-me para casa, pois ele tinha de descansar e eu não podia ficar lá. Durante duas semanas ia lá sempre visitá-lo, ele estava a melhorar para meu agrado. Passadas duas semanas e meia deram-lhe alta.

Decidi dar-lhe um cartão onde tinha o contacto de alguém que o ajudasse. Ligou para lá e marcou uma consulta. Passado um mês e meio ele estava muito melhor. As suas cicatrizes sararam embora as que tinha dentro de si não. Mas lá conseguiu ultrapassar essa fase da sua vida. Agora ele trabalha, tem a sua família, a sua casa. E posso dizer que estou bastante orgulhoso dele. E nunca me esquecerei de uma coisa que ele me disse enquanto estava no hospital.

“A vida não é fácil, temos dificuldades e obstáculos a enfrentar, temos sempre de erguer a cabeça, sermos fortes e ultrapassar isso tudo. Até o dia que te conheci não sabia o que era ter alguém do meu lado para o que der e vier. Foste a minha força e continuas a ser! Um obrigado por tudo.”

Após esta história vou-vos deixar uma pequena citação que encontrei.

“Lembra-se daquela menina que você chamava gorda? Hoje ela sofre de anorexia. Lembra também daquela que você desprezava por ser magra demais? Hoje ela engordou, e agora está difícil para voltar ao peso normal. Se lembra daquele garoto nerd? Hoje ele não tem mais o “futuro promissor” que tinha antes, porque parou de estudar. Sabe aquele grupinho emo? Então, hoje eles não estão mais vivos, graças a um corte. E aquela garota anti-social se lembra dela? Pois bem, ela tenta ser popular, e por essa razão se tornou a mais odiada da escola. Não julgue sociedade, lembre-se sempre das consequências.”


PELA WEB

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