Sobre um soldado perdido…

É tão bom gostar-te em segredo.

E eu só te gosto, porque se eu te amasse, se eu tivesse coragem de te amar, a esta hora eu sei que estarias aqui a meu lado. O meu medo é a corrida com todas as outras que tu falas, que te baralham, e eu estou a deixá-las chegar à meta. Ainda bem que sempre gostei de correr e lutar.

Sei que te importas comigo, lembras-te daquela vez que decidiste levar-me a casa, e durante a viagem toda colocavas a tua mão sobre a minha perna? Ainda bem que fui a única que levaste a casa com todo aquele carinho.

Gostava tanto destes últimos tempos em que me ligavas sem eu te pedir para que o fizesses, falavas-me da família, do que querias ser, comias enquanto falavas, eu amava. Ainda bem que sempre me colocaste nos teus planos.

Quando íamos tomar café, não havia um dia em que não colocasses a tua mão por cima da minha e pensasses: não há louca como tu, és única. Ainda bem que sempre expressaste os teus sentimentos por mim.

Fazia confusão quando me dizias que te importavas comigo de uma maneira que eu nunca me iria importar, e eu sabendo que isso seria impossível, porque tinha sido eu que tinha ficado com uma dor de barriga enorme quando tu tiveste de ser operado, tinha sido eu que fiquei a rezar por ti para que tal cerimónia, te corresse da melhor forma, nós adorávamos  as séries policiais, os filmes de guerra, fiquei feliz quando me disseste que querias ir para o exército. Ainda bem que as tuas amigas torceram por ti o dobro de que eu torci.

Dizias que eu era uma aborrecida, ciumenta, e relembravas que nós só éramos amigos, mas depois afirmavas com toda a certeza que eu era diferente, que merecia um tratamento diferente de todos os outros e outras, o que me surpreendia, mas não acreditava. Ainda bem que me zelas-te até hoje.

Daquela vez que me ligaste para ir conhecer os teus amigos, eu nem queria acreditar, eu fui e sentei-me no teu colo em frente a eles e nunca te vi tão confortável e sorridente. Ainda bem que as outras também gostam do teu colo e dos teus amigos.

Eu amar-te-ia, se tivesse a plena certeza, de que, nesse mundo de miúdas, eu era a tal que recebia o melhor tratamento, com quem tu querias estar, desabafar, morder, e se tu algum dia tiveste para dizer que me amavas, e tiveste receio, agora o único receio que eu tenho é o  arrependimento, porque eu amo-te.

Desculpa, mas tenho de ir, vemo-nos por aí, quando decidires que o teu futuro é com elas e não comigo. Ainda bem que vou para o exército em breve.

De uma futura Sargenta.