(…) sempre tive o espelho como pior inimigo!

Sempre tive complexos com o meu corpo, sempre tive o espelho como pior inimigo, desde pequena que sempre acreditei que estava destina a não ter autoconfiança e a não ser amada, o espelho mostrava-me sempre o meu pior pesadelo, aquilo que eu mais temia ver, as minha imperfeições, as minhas curvas a mais.

Mas os espelhos de casa não eram as piores ameaças, pois essas estavam dentro dos provadores das lojas, como se já não bastasse o calor e as calorias gastas a tentar vestir aquele par de calças super giro mas que parecia ter sido feito só para as manequins, ainda existiam aqueles espelhos, que salientavam cada pormenor como se a beleza tivesse ficado à entrada da loja e só dentro dela fosse possível vir a encontrar algum tipo de perfeição, coisa que nunca acontecia, a roupa tornava-se cada vez mais pequena, um 36 vestia como um 34 e o 38 mal entrava nas pernas mas deixava a cintura a dançar dentro das calças, o gosto pelo belo foi desaparecendo aos poucos através de pequenas coisas assim, as roupas já não disfarçavam aquilo que eu desejava nunca ter e a vergonha tornava-se cada vez maior, afinal só as magras tinham direito a se sentirem bonitas.

O desejo pela perfeição começou por uma simples tarte de morango que parecia a mais no estômago, pedindo para a deitar fora, muita coisa acabou por ali estar a mais, e tudo começou a ir para fora, mas não era o suficiente, não bastava, então a comida simplesmente já não entrava no corpo, mesmo assim, não era o suficiente, e o desporto dominou o corpo fraco que mesmo sem forças se esforçava para conseguir a forma perfeita. A cabeça começou a tornar-se pesada, o chão fugia e os pés não se sentiam capazes de o acompanhar, as quedas tornaram-se frequentes e o soro já não faziam efeito, horas e horas em hospitais perdidas apenas por querer alcançar algo que eu achava ser o ideal, mas ainda não era o suficiente, o espelho ainda pedia mais, as roupas continuavam a ser pequenas e a balança não ajudava com aqueles números redondos que me faziam sentir um monstro.

Aquela já não era eu, aquele corpo já não me pertencia, eu já não era feliz, e tudo por causa da porcaria do espelho que a cada dia aumentava mais a minha ânsia de alcançar a perfeição! Mas o que estava eu a fazer ao meu corpo? Ao único que tinha, à minha vida? Sentia-me como um zombie, mesmo assim não parava, porque nunca era o suficiente! No entanto, as pessoas também não ajudavam, a cada osso mais saliente diziam que eu estava mais bonita, e eu acreditava, pensava que aquelas pessoas realmente se preocupavam comigo, e acreditava!

Que burra que eu era!

Até que uma manhã, acordei, tentei levantar-me da cama e percebi que estava sem força nenhuma no corpo, por entre arrastos e raiva, guiei-me até à cozinha e procurei tudo o que andava a negar ao meu corpo, e só parei de comer quando recuperei forças para enfrentar o espelho e admitir que nem ele nem ninguém podiam definir o quanto eu era bela, voltei a comer e até hoje não privei mais o meu corpo de ter as curvas que o definem!

A beleza não está nos ossos mas sim na alma, e essa é bem mais visível que qualquer barriga lisa, rabo pequeno ou pernas finas, pois magra qualquer uma pode ser, agora, ter uma boa alma, não é qualquer ser que tem essa capacidade.

PORGanesha
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