Sem saída!!!

Amélia é uma jovem com um passado complicado; nascida numa família desestruturada de mãe toxicodependente e pai alcoólico. Sempre se lembra de o pai bater na mãe e muitas vezes a ela também (desde a sua tenra idade!) e de viverem com grandes dificuldades, desde a sua infância que habitam na mesma casa: uma casa velha, desengonçada, feia e sem quaisquer condições de habitabilidade – algo que, há medida que foi crescendo sempre a deixou envergonhada e com vontade de mudar de vida –. A madeira estava estragada, apodrecida, com buracos, fissuras e comida pelos bichos; as paredes já não eram pintadas porque a tinta branca estava toda descascada, e estavam cheias de humidade. No Inverno, a casa era gelada, como não tinham luz, não podiam aquecê-la de forma alguma, contornavam os dias frios com cobertores e mantas (mas alguns já estavam tão rotos que quase não serviam para nada), comiam à luz das velas, não tinham frigorífico, nem água quente. Não tinham saneamento também.

Viviam com o pouco que tinham, dormiam os três na mesma cama; e quase que não tinham loiça onde comer. Amélia vivia no meio da imundice num mau ambiente para a sua idade.

Tanto o pai como a mãe de Amélia há muito que não trabalhavam, por causa das suas dependências, não havia quem os quisesse empregar; por isso, na maior parte dos dias Amélia não comia como devia, bebia água (que ainda era uma coisa que não lhes faltava, mas não demoraria muito tempo até que lha cortassem) e comia uma côdea de pão. Ou então ia aos caixotes do lixo procurar o que encontrava: caixas de bolos, fora de validade; bolachas; sumos, aproveitava quase tudo. Não contava nada aos pais senão era tareia pela certa.

Nunca tinha ido à escola, mal sabia ler ou escrever o seu nome; não tinha muitos amigos porque o seu aspeto era tão desleixado: cabelo sujo como terra, roupas velhas como o tempo, e o cheiro na pele que fazia com que as pessoas se afastassem.

À medida que ia crescendo, Amélia foi fazendo alguns biscates por aí: fazia recados, varria as ruas, lavava carros, fazia todo o tipo de coisas, o que ia aparecendo, para ganhar algum dinheiro, sonhava poder voltar à escola e ser veterinária – adorava animais –.

Mas as coisas continuavam a não ser fáceis para a Amélia; em casa havia discussões frequentemente porque várias pessoas se emocionavam com a história dela e dos pais assim como com as condições em que eles viviam e tentavam ajudar: com comida, roupa entre outros bens, mas os pais de Amélia recusavam sempre. Para além de tudo isto, os poucos trocos que Amélia ia ganhando com os pequenos trabalhos que fazia, iam desaparecendo do mealheiro á medida que os dias passavam; um dia Amélia descobriu que o pai lhe roubava o seu dinheiro – ganho com tanto trabalho e suor – para o gastar na bebida. Amélia revoltava-se sempre e ameaçava que um dia sairia de casa e já não era a primeira vez que o pai a agredia violentamente deixando-a com marcas no corpo e na alma.

Foi durante um trabalho de distribuição de pizzas numa pizzaria que Amélia conheceu o Bernardo: um jovem simpático e muito afectuoso que por lá trabalhava há algum tempo. Ajudou-a a integrar-se e nos primeiros dias, acompanhou-a e foi-lhe tirando todas as dúvidas. A amizade que foram construindo tornou-se tão intensa e cúmplice que alguns meses depois Amélia e Bernardo apaixonaram-se um pelo outro; Bernardo não tinha vergonha de Amélia por ser pobre e ajudava-a naquilo que podia.

Um dia Amélia adoeceu e não foi trabalhar, Bernardo estranhou o facto de ela faltar ao trabalho e ligou-lhe. Ofereceu-se para a levar ao hospital mais próximo, Amélia recusou sempre, mas depois de muita insistência aceitou. Realizou alguns exames e umas análises e o diagnóstico revelou-se um perfeito desconhecido: Amélia era seropositiva.

Foi um choque, o mundo caiu-lhe todo em cima porque sabia que isso implicaria dificuldades em arranjar emprego e em estabelecer relações, Bernardo abraçou-a, deu-lhe a mão e ficou ao seu lado prometendo, nunca, jamais a abandonar. A dor foi ainda pior quando o médico lhe disse que o mais provável era ela ter o vírus da SIDA desde a nascença. Apetecia-lhe desaparecer, fugir para qualquer parte; explicou ao Bernardo que precisava de ficar sozinha, para lhe dar um tempo. Ele respeitou e afastou-se uns dias.

Amélia confrontou os pais com a sua descoberta e ficou a saber da sua verdadeira história, a mãe era seropositiva: tinha apanhado o vírus através de uma seringa contaminada e transmitiu o vírus durante a gravidez. Amélia chorou, sabendo que iria viver o resto da vida presa a uma doença sem cura, tentou chamar os pais à razão para que se tratassem e assim mudassem todos de vida. Recusaram; mais uma vez.

Desistiu de tentar. Ligou ao Bernardo e este convidou-a a viajar com ele até Londres. Renitente mas expectante, Amélia aceitou a ideia.

Passaram dois anos, Amélia e Bernardo continuam em Londres, estão a estudar juntos e a trabalhar num restaurante. Talvez um dia regresse, talvez fique por ali. O futuro é incerto, saudades dos pais?

Sentia algumas, mas teriam que aprender a ultrapassar os problemas sozinhos.

A vida de Amélia mudou, agora está na hora de lutar pelos seus sonhos.