O segundo dia de férias

Era já o final do segundo dia, já não sentia animação. Nem as pequenas aventuras Japonesas daquele romance me despertavam o sexto sentido. O pôr do sol foi murado por uma nuvem negra, carregada de lágrimas, pela falta de discursos de paixão.
O meu coração que parecia um cicerone, mostrando o que havia de notável, onde mais ninguém conseguia ver, tornara-se só mais um, igual a tantos outros, frio, indiferente, inapetente.

Mas embalado pelo movimento pendular do transporte nos carris, senti uma melodia que destoava do concerto de Miles Davis e John Coltrane em Estocolmo. Saía dos meus auriculares como um vento Harmatão proveniente do Saara, típico das noites do Reino de Gabu. O “Doutor” aliviou o cansativo calor húmido da saudade. Era uma mensagem tua.

Não foram as palavras, as poucas que foram escritas, que me embriagaram de prazer, mas sim tu teres-te lembrado de mim.

Nesse momento soltei um sorriso desmedido que chegou a enrubescer o meu rosto.
E um bulício de panapaná revoltou-se no meu estômago, parecia o meu primeiro beijo.
Eu queria articular tudo e dar um sentido aos meus pensamentos mas não saia mais nada para além das perguntas banais. É estranha a desorientação que me provocas.

Mas no final fiquei contente por ti.
Nunca o tinhas visto e pela primeira vez ias cantar o mar, a madrugada e o sol, que a luta dos teus antepassados fecundou.

PORRafael Barata
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