Riqueza não é vida

“As jóias que ganhei ou comprei ditam a pessoa que sou aos olhos de muitos. Está estipulado que, pessoas como eu, são mimadas, interesseiras e mal agradecidas pelo que têm. No entanto, estava rodeada de pessoas que diziam gostar de mim. Será? Será que só os outros como eu tinham quem falasse mal deles? Não é estranho?

Por não me considerar mimada nem interesseira (porque no fundo não precisava disso), decidi abrir os olhos e ficar atenta. Para complementar a minha decisão, decidi também programar uma festa na minha casa, com os interesseiros do costume. Durante o tempo todo fui eu mesma, somente um pouco mais atenta. Não demorou muito para descobrir o que eu suspeitava (mas não dela…). Num dos momentos super divertidos, ausentei-me para ir à wc. Mentira claro. Fiquei atrás da porta à escuta. Gostava de saber o que falavam quando eu não estava presente. Bingo!

Estas festas à pala são muito bacanas!” Dizia a minha (suposta) melhor amiga. “Tu é que tens sorte, estás sempre com ela. Todos te conhecem e ela oferece-te muitas coisas!” Disse outra falsa. “Não se preocupem, não tarda serei igual a ela.” Respondeu a falsa. Iguais a mim? Todas as outras se interessaram óbvio. Ela ainda justificou “O meu plano para usufruir de uma boa parte do dinheiro dela está quase a dar certo.

Não quis acreditar que a situação seria mais grave do que eu pensava. Mas pensando bem, naquele momento muitas atitudes faziam sentido. Semanas antes ela havia falado comigo sobre o seu sonho em abrir uma associação para apoiar animais abandonados e pediu a minha opinião, que foi positiva. Achei uma nobre iniciativa. Nunca mais falámos disso durante uns três dias. Até que ela começou a insistir em falar mais sobre o assunto, querer muito a minha opinião em todos os detalhes. Super entusiasmada. Contou-me que os pais estavam a tentar arranjar apoio do banco e no fim acabou por me convidar a participar da iniciativa. Eu concordei. Cada parte contribuia com metade. Comentou que gostava de iniciar aos poucos, com uma pequena quantia, um espaço pequeno na medida do possível. E lembro-me de achar a quantia alta para tal intenção, mas nem coloquei em causa a palavra dela. Eramos amigas à quinze anos.

Voltando à festa…nesse momento nada fez sentido. Deixei a festa terminar como sempre. No dia seguinte disse-lhe que estava doente e, por isso, não poderia ir à faculdade. Menti. Quando tinha a certeza de que ela não estaria em casa, fui ter com a mãe dela. Iniciei a conversa questionando se estava a par do facto da filha querer abrir uma instituição. Para meu espanto (ou não) respondeu que não. Aí tive a certeza de que não tinha amigos. Claro que de imediato quis saber o que se estava a passar. Expliquei-lhe tudo. Ficou sem palavras e disse-me que ela nunca havia comentado nem uma vez. “A minha filha a tentar roubar a melhor amiga” comentou. Mais tarde descobri que o namorado dela também estava metido no meio.

Deixei de lhe falar de um momento para o outro. Recebi imensas mensagens e telefonemas dela durante um mês inteiro, todos os dias. Na faculdade ignorava-a. Ela insistia em seguir-me. Até que desistiu de me incomodar. Achei que assim era melhor. A realidade é que não me apetecia mais falar no assunto e como não tencionava ser amiga dela, nem valia a pena. Ela nem merecia ter direito a uma conversa. Mas essa conversa aconteceu. Apareceu na minha casa sem avisar. Abri-lhe a porta e antes de ela abrir a boca, disse-lhe tudo o que tinha a dizer quase sem respirar. Perguntou-me se podia entrar. Apesar de estar a chuver não deixei. Tentou desculpar-se de todas as formas e feitios. Limitei-me a ouvir tudo até ao fim, assim que terminou fechei a porta na cara dela.

Deixei de conviver com todas as pessoas com quem havia convivido até à data. Deixei de dar festas. Deixei de confiar. Abri os olhos.”