Reencontro

São duas da manhã. A estrada deserta e escura sem um sinal de um bom caminho para seguir. Mesmo assim, percorro essa estrada todas as noites.

Todas as noites procuro sem encontrar nada. O candeeiro público ilumina a estrada e lembra- me da possibilidade absurda de surgires do nada. Nem que, fosse apenas para me ofereceres o teu sorriso. O motor da minha vida e o que faz- me percorrer incansavelmente por esta estrada todas as noites. Nunca surgirás nesta estrada, mas quero acreditar, que sim. Sou uma louca apaixonada, eu sei. Recuso- me a cometer a loucura de deixar de te amar. Deixar de amar o teu sorriso, os teus olhos, a tua mania esquisita de mexer nas coisas quando estás nervoso, de amar os teus defeitos, pois eles só pertencem a ti. E, isso basta para a minha felicidade. Podias chegar aqui, mesmo com o teu mau humor, eu seria feliz. Eu não me importo com o mal causado, basta sorrires e tudo passa. O meu céu cinzento medonho ganharia cor, num segundo.

Dentro de mim, transporto um tornado capaz de destruir esta estrada, de destruir- me. Porém, tudo fica intacto e sou eu que morro aos poucos. Um veneno lento, esse amor que consome. Só quem nunca amou, não entenderá.

Naquele dia, onde sorris- te pela primeira vez nos meus olhos. Os olhos também sorriem, ficam já a saber. Senti o meu corpo paralisar, como se, tivessem- me dado uma droga qualquer. E, fui a mulher mais feliz do mundo.

O vento trazia o seu cheiro, com ele mais um ponto para me paralisar. Um sorriso de quem já sabia os efeitos que causava, avançou até a mim sem dó. Parada no mesmo lugar, esperei-o. Tinhas o poder de seduzir quem quisesses e pouco te importavas com isso. Eu era só mais uma que caia aos teus pés.

Sem a minha permissão, já tinhas o meu coração nas mãos. O teu sorriso já próximo ao meu, as tuas mãos sobre o meu rosto e beijas- me. Foi aí que me arrancas-te de mim. Deixei o sentimento fluir, tu sentis- te e mesmo assim ignoras-te. Foste tão meu naquele beijo, sem o ser. E, eu fui tua totalmente até hoje, aqui sentada na beira desta estrada.

Depois, desapareces- te da minha vida. Ignorei os conselhos sensatos, Nenhum faria me feliz. Para que servem, os conselhos?

– É um erro. – Alertaram- me, muitas vezes.

Ignorei todos.

– Foi o erro mais acertado, que eu já cometi. – Repeti para mim mesma.

Pisar todos os riscos pode não ser aceitável, mas valeu a pena.

Olho para a estrada vazia. De seguida, para a lua e as estrelas, como agradecendo a companhia. Pareciam solidárias com a minha dor, com a tua ausência.

Não existe nada melhor do que o manto estrelado sobre mim. Tão imenso, parece estar perto e está longe. Assim como, o dono do meu sorriso.

Todo um sorriso, seja ele qual for, tem dono. Ninguém, sorri de felicidade sozinho. Ninguém é feliz sozinho. Se alguém, o diz ser, mente.

Naquela noite…

Olho vagamente para o vazio. Um carro pára em frente a mim, a porta do lado do condutor abre- se. Baixei o olhar, quando levantei, deparei- me com aqueles olhos, o sorriso mudado, faltava algo, mas ainda era o mesmo encantador. Abanei a cabeça negativamente com os olhos fechados. A princípio não acreditei nos meus olhos. Quando abri vi- o tão claramente a sorrir- me.

– Por aqui, sozinha?

– Parece que sim…

– Posso sentar- me?

Sim.

Ele senta ao meu lado. Olho para o meu manto estrelado.

– Está uma noite bela! – Diz- me.

– Sim. – Concordei.

– Vens sempre aqui? – Perguntou- me.

– Não. – Menti.

(Ia todas as noites, depois do fim)

Levanto-me sem olhar para aquele rosto. Acabaria por paralisar, como no dia que nos beijámos, pela primeira vez. Dou dois passos para a frente. Sinto a mão dele a segurar o meu braço.

– Não vás…

Olho para ele. Deparo- me com o olhar de sempre, capaz de me prender. Ficou em silêncio por alguns segundos, sem desviar o olhar. Não protestei.

Estava a sentir- me igualmente fraca. De certo modo, eu só lembrava dele nas madrugadas a sós e naquela estrada todos os dias.

– Perdoa- me. – Ouvi- o dizer.

– Porquê?

– Por ter saído da tua vida.

– Ah… Tudo bem! – Forcei um sorriso.

Acaricia-me o cabelo e encara- me. Aquele olhos verdes e sorriso brilhante ainda conseguia paralisar- me o corpo. Por dentro, sentia- me ainda adolescente. Ele não recuou, cada vez mais se aproximava de mim.

– Vim aqui para relembrar o nosso momento. – Diz sem desviar os olhos dos meus.

Segurei as lágrimas e afasto- me. Ele continuou insistente, segue- me e puxa- me contra si. – Por favor, não vás!

Eu nunca te disse…

Olhei-o fixamente sem entender. André não desistiu, já se encontrava a poucos centímetros de mim. Não me movi.

A sua voz implorava e eu cedi. O seu sorriso tinha desaparecido, por momentos perguntei- me o que tinha acontecido connosco. Ele permaneceu quieto com o olhar no meu. Por fim, tenta falar e a voz não sai.

– Perdoa-me. – Repetiu.

Eu respirei fundo.

– Eu sempre te amei. – Confessou.

– Não brinques, com coisas sérias. – Digo, com o semblante sério.

Ele parecia triste e realmente abatido, mesmo assim neguei- lhe um sorriso. Já causara ferimentos no passado, não quero de volta o sofrimento. Os danos que um amor pode causar, ninguém imagina. A não ser que, sofra também com a partida dele. O coração começava a trair- me e a mente também. Decidem empurrar- me logo para o que chamo de abismo.

Aquele homem parecia- me diferente. Virei- lhe o rosto sem hesitar, ele não podia ver escrito, no meu olhar a verdade. A mais pura verdade, ao fim desses anos, eu continuo a amá-lo. E, se permiti outros corpos, outras bocas foi apenas, para calar o ruido em mim. Tornei-me na minha pior inimiga e o culpado és tu! – Pensei.
– Por Favor!
Olha para mim! – Pediu.
Obedeci e esperei.
– Mariana…
Estremeci ao ouvi-lo pronunciar o meu nome. A voz dele soou como um sussurro, tão suave. Seria capaz de a ouvir todos os dias sem enjoar. Se isto, não for amor, não sei o que é.
Preciso que alguém explique!
Já sentia os lábios dele roçar nos meus, incapaz de me defender, cedi. Mais uma vez, cedi, ao beijo que procurei em outras bocas, em vão. Nenhum beijo, chegava a ganhar- me, mas esse sim. Esse encontrava- me inteira, antes de mostrar os meus cacos.
Quando se afastou da minha boca, acariciou- me o rosto húmido. Sem perceber, comecei a chorar. Baixei o olhar envergonhada da minha fraqueza, sempre detestei sentir- me vulnerável. E, nesse momento sentia- me assim.
André, segura- me o rosto com as duas mãos. De seguida, beija- me o rosto e a testa. Olha nos meus olhos.
– Ai! – Pensei.
Senti minhas pernas tremerem. No entanto, obriguei- me a permanecer firme, sem dar outro vestígio do meu amor por ele. Contudo, não consegui recuar um passo.
Ele continuava tão perto.
Sorriu- me, ao mesmo tempo que mexia nos meus fios de cabelo soltos caídos no meu rosto. – Fui um idiota, quando te deixei!

– Pois foste! – Concordei sem hesitar.

O sorriso apagou- se.

– Deixa lá!

Eu sobrevivi sem ti.

Nada me disse. Podia ver a dor estampada nos seus olhos e de certeza que ele, podia ver a minha nos meus. Sempre fui muito transparente, sem o querer ser.

– Continuas tão linda!

– Obrigada!

Depois disso, sentámos- nos na berma da estrada e conversámos durante alguns minutos. Ele conta- me que se formou em Direito, como me tinha revelado o seu sonho, naquela época. Confessou- me, que leu todos os meus romances, para sentir- me perto. Por fim, com alguma hesitação pergunta mais.

– Tens namorado?

– Não.

(Fui namorando réplicas falsas de ti, durantes estes três anos)

– Eu também não. (Deixei uma mulher, porque te amo)

– Hum.

Tocou a minha mão. Retirei- a imediatamente, não ia ceder mais. O passado ficou lá no lugar dele, não vou reviver de novo o mesmo sentimento. Mais uma partida e o desespero. – Desta vez, não permito avanços. – Disse, para mim mesma.

Decidi abandoná-lo ali, como ele fizera comigo, naquele dia. Entrei no meu carro, fiquei parada por alguns minutos, agarrada ao volante. Ele permaneceu quieto no mesmo lugar, talvez, estejamos a tentar encontrar a coragem que não tínhamos. Avancei a grande velocidade naquela estrada, vi-o sumir, à medida que seguia em frente. Paro em frente ao portão da minha casa e choro como uma adolescente. O volante era testemunho do meu desespero. Por fim, olho para o retrovisor e obrigo- me a sorrir, a vida continuava. Ele não podia voltar a bagunçar- me.

Entro em casa, dirijo- me ao meu quarto. Pela janela, vejo o amanhecer e adormeço exausta das emoções. As emoções acabam com o corpo, ficam a saber.

Durante o sono, chama por ele, nem assim esquece o André. E seguiu assim, por vários dias.

(Quinze dias depois)

André encontrou-a na esplanada de um café, distraída a escrever num bloco de notas. Sorriu ao aproximar-se dela, ia tentar de novo.

– Olá! – Cumprimentou-a com um largo sorriso.

Ela levanta o olhar, sente o coração parar num segundo. Sem autorização ele senta- se ao seu lado. Ela cumprimenta- o com a voz trémula, não esperava encontrá- lo ali. Conversam durante duas horas. Ele tira-a dali, leva-a ao local da «primeira vez». Sem defesas, entrega-se a ele, finalmente a ele. Os corpos amaram- se muito mais que antes, não foram necessárias palavras, responderam um ao outro com a voz dos sentidos

No fim do prazer sorriram.

– Quero- te para sempre! – Diz- lhe André, enquanto lhe afaga o cabelo negro.

– Idiota! – (Era a maneira dela dizer, amo- te)

– Amo- te, princesa!- Sorriu.

Ela retribui o sorriso e beija- lhe o sorriso sem hesitar. Ele envolve-a no seu abraço, olha- a nos olhos.

– Casas comigo?

– Sim. – Abraçou- o com força.

Trocam um beijo.

E, foram… Ah, «normais» para sempre.