Recordar é viver!

Passava lá os fins de semana, de Sexta a Domingo, em casa da minha avó, para que a parte da custódia que pertencia ao meu pai fosse substituída pelo banco à lareira dos meus avós e pelas madrugadas a ver desenhos animados. Às vezes chorava, dizia que não queria ir, que os meus primos não iam estar lá aquele fim de semana, e que ia ser aborrecido. Outras vezes, quando anunciavam que a minha madrinha, que vive em Paris, estava prestes a chegar, começava-me a crescer água na boca só de pensar nas guloseimas a que sempre nos habituou, a mim e aos meus primos, a cada visita que fazia. Ainda hoje.

Eram outros tempos, juntávamo-nos todos, eu, a minha prima Daniela, a minha prima Patrícia, e o meu primo Paulo, e montávamos no carro das vacas para ir a terras cujos os nomes me são eternos, a terra do sapo, a terra dos figos, a terra dos peixes, todas elas com nomes atribuídos consoante a imagem que tínhamos delas. Depois, tinha eu sete anos, os meus tios ofereceram-me uma bicicleta verde que ainda hoje vive empoleirada num barracão à entrada de casa dos meus avós, com todas as feridas que lhe pertencem, em ferro oxidado. Foi a desgraça da minha avó, e a minha, que lhe fugia sem avisar até casa dos meus primos. Encostava-me junto ao muro da casa da minha tia Emília, num ângulo que me permitisse avistar se estaria ou não alguém em casa dos meus primos e, se assim fosse, pirava-me na bicicleta verde e de pneus carecas pela estrada fora. Travava a fundo, na brita de preferência, para se notar a marca da travagem. Quando me juntava com a minha prima Daniela, dois anos mais nova, e o irmão dela, o Paulo, quatro anos mais velho, pegávamos nas bicicletas e íamos dar uma volta todos juntos. O meu primo, sendo o mais velho, ficava responsável por nós, tínhamos de o seguir para não o perdermos de vista, e no final de cada volta todos queríamos chegar primeiro, chegava o meu primo, claro, e depois eu pela lógica da idade, e por último a minha prima que fazia birra por ser sempre a última, excepto quando o irmão me dificultava a vida e se enfiava na minha trajectória dando espaço para a minha prima ganhar. E ganhava, era a primeira de todas, e ia dizer aos pais que tinha ganho, e gozava comigo, chamava-me “cagado” porque não conseguia dizer o meu nome, e eu amuava, enervava-me, odiava perder, ainda hoje não suporto a palavra. Às vezes o meu tio e os meus primos iam correr, treinar – era assim que lhe chamávamos, “vamos treinar até ao Louriçal” -, e eu, com sete anos e até mais, também queria ir, queria sentir-me capaz de os acompanhar, não queria desistir, não podia, muito menos antes da minha prima, era uma vergonha quando isso acontecia e me dava a dor de burro.

Aos Domingos tínhamos provas e cada um corria com o seu escalão, ainda guardo algumas medalhas no meu quarto, e umas duas taças até, uma delas de quando eu ainda pertencia ao escalão dos iniciados, numa prova de quatrocentos metros, cheguei em primeiro lugar. Foi a minha primeira vez, aplaudiram-me enquanto eu corria de cabeça erguida, com todo o fôlego que tinha, para chegar primeiro do que a outra dúzia de concorrentes. No final, recordo-me, um dos dirigentes com bigode taberneiro ainda me perguntou com microfone na mão se algum dia gostava de vir a ser o próximo Carlos Lopes, e eu disse que não porque não conhecia, sabia lá eu quem era o Carlos Lopes, o que importava naquele momento é que tinha ficado em primeiro lugar, uma primeira vez na vida.

A minha avó comprava-me iogurtes às escondidas e às vezes um gelado que ainda hoje continua com o nome de Epá, e eu comia-o até à parte das pastilhas. No natal recebia postais do meu pai e uns collants vermelhos que a minha avó comprava na loja da ti Dulcinia.

Vivemos e crescemos para um dia recordar coisas que só imagina quem realmente esteve presente. E hoje recordo-as, uma a uma, em fotografias ou em pequenas memórias, recordo-as em pequenos traços de uma infância que me viu crescer sem os dentes que parti na cama da minha avó.