Quero tanto esquecer-te!

Porque nem tudo na minha vida correu como planeei, hoje escrevo-te por linhas tortas. Não te quero ver. Não suportaria a ideia de te ver partir novamente. Quero apenas poder pertencer-te nestas palavras. Depois esqueço-te: como se fosse assim tão fácil; «Plim» e esqueci-te. Mas não. Haverá sempre algo a prender-nos. É para isso que servem as memórias: para nos roubarem o pouco tempo que temos; aquele tempo que poderíamos aproveitar para planear o amanhã e ficamos presos a um número imenso de imagens e vozes que não sabemos de onde vêm. É esse efeito que tens sobre mim: às vezes ainda me roubas um sorriso porque, sem saberes, tu estás comigo, mas eu não estou contigo; eu estou num sítio onde tudo me aborrece, onde o dia flui sem esperar por mim, aqui, como hoje, a escrever-te isto – sem saber bem o quê.

Tenho pensado imenso numa frase: «Não há amor que volte, existem apenas amores que renascem.», no entanto não sei bem explicá-la. Pudesse eu renascer nos teus braços a cada dia.

Penso demasiado em ti para te conseguir esquecer. Ainda tentei numa segunda-feira de madrugada, mas quando chegou a hora de jantar descobri que ainda punha a mesa para dois.

Sei lá eu, se estás longe ou perto. Não sei sequer onde estou. Há quem me diga que estou no mesmo sítio onde me deixaste. Outras pessoas chamam-me maluco por fazer esta pergunta. Acho que ninguém me entende. Só o senhor do café que adivinha sempre o que quero: um café.

Tenho a barba por fazer, a marca do relógio no pulso. a camisa por passar. Como se não fosse desastre suficiente, tenho saudades tuas. Quando leres esta carta vem buscar as memórias que deixaste em mim. Ou então podes ficar só mais uma noite e deixar-me fazer o resto.

Continuo preso entre o desejo e o esquecimento porque é mais fácil desejar esquecer, do que esquecer o que desejamos. Quero esquecer-te. Quero que saibas disso: quero tanto esquecer-te.


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