Querido Pai Natal que não existes…

Querido Pai-Natal,

Teria montes de desejos para concretizares se fosses real. Ter-te-ia pedido mil e uma coisas se existisses de verdade.

Foste a maior (des)ilusão da minha vida.

Foste a minha primeira desilusão. Mas foste uma preparação para aquilo que teria de viver ainda.

Não achas mal aquilo que fazem às crianças? Iludi-las. Dar-lhes falsas esperanças, criar-lhes falsas expetativas. Eu quando soube que tu não existias fiquei muito triste e tive sérias dificuldades em ultrapassar isso. Não me recordo se chorei ou não, acho que não, mas ambos sabemos como consigo engolir as lágrimas, mesmo as mais dolorosas. Fiquei triste, não podia ser, toda a minha vida eu tinha acreditado em ti. Fazias parte da realidade que eu conhecia. Não imaginas como dói quando somos obrigados a enfrentar uma realidade diferente daquela que conhecemos.

Hoje, abomino-te de todas as formas possíveis. Não é isso que fazemos com todas as desilusões?

Somos todos culpados pelo sofrimento que se apoderará das crianças de hoje. Tu és culpado. Mas tu nem existes. A culpa é de quem fala de ti, de quem sustenta a imaginação das crianças.

Tu não existes. No entanto, todos perguntam, nesta altura do ano:

-Então, Joãozinho, já escreveste a tua carta ao Pai Natal?

-O que pediste ao Pai Natal, Ritinha?

-Se não te portares bem o Pai Natal não te dá presentes, Pedrinho.

Tretas.

Querido Pai Natal, se existisses, pedir-te-ia que parassem de iludir as crianças desta forma. Sem se aperceberem, muitas pessoas são culpadas pelas desilusões dos seus filhos. Quem as manda pintar o mundo como um sítio perfeito? As crianças são inocentes e, em pouca diferença, tornam-se ingénuas. Dizem que quando crescerem terão tempo de se preocupar com as dificuldades da vida. Porém, se lhes dizem constantemente que a vida é maravilhosa e perfeita, como querem que reajam quando se apercebem que nem tudo é um mar de rosas?

Querido Pai Natal, se existisses, só pedia que parasses de permitir que te usassem para iludir os seres mais vulneráveis do mundo: as crianças. Ninguém merece conhecer cada espinho da desilusão. Se existisses, irias perceber o que tento dizer-te. Mas não existes e não imaginas como sofri por não existires.

PORCátia Cardoso
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