(…) que todos os pedófilos tivessem uma morte triste, lenta, dolorosa, a pior das mortes!

Eram férias da Páscoa de 1999, tinha eu na altura 9 anos.

Estava uma linda manhã, eram férias da escola e eu tinha acordado cedo para ir brincar. Vesti os meus calções azuis de pano preferidos e um top de alças branco. Na rua cheirava a folares de carne que a minha avó e as vizinhas estavam a fazer no forno de lenha algumas casas abaixo da minha. A rua onde eu morava quase não tinha crianças, a maioria só vinha nas férias de verão, havia apenas um menino, poucos anos mais novo que eu, que partilhava todas as brincadeiras comigo, e as minhas irmãs, mais velhas, que já não ligavam a bonecas. Como éramos os únicos da rua, os idosos tratavam-nos como se fossemos seus netos.

Eu gostava de ali morar, era uma aldeia pacata de Trás-os-Montes, onde toda a gente se conhecia, onde eu tinha a maioria da minha família.

Naquela manhã decidi não esperar pelo meu amigo para brincar, e fui jogar sozinha à bola. Com o cheiro intenso a folares e já uma hora passada de eu estar na rua, decidi ir ao forno buscar um pedaço. Acho que nunca me vou esquecer daquele cheiro, daquele sabor a folar acabado de sair do forno, que estava tão quente que me deixava a ponta dos dedos encarnados. Depois de comer decidi ir jogar outra vez à bola, na esperança de que o meu amigo chegasse. Às vezes brincava às bonecas, mas hoje era o dia da bola de futebol, que na verdade era uma bola imensamente pesada de basquetebol que eu utilizava como de futebol.

A dada altura, da garagem da casa dos meus vizinhos da frente saiu o senhor Manuel. Um senhor já com alguma idade, que morava com a sua adorada esposa que eu admirava pela simpatia que sempre demonstrava comigo desde que me lembro de ali morar, ou seja, desde sempre. O senhor trazia um carrinho de mão, recordo-me de ele olhar para ambos os lados da rua, e depois para mim, abrindo um grande sorriso que fazia o seu bigode branco subir sobre as bochechas. Vestia a mesma roupa de sempre, uma camisa de manga curta branca com listas finas castanhas, e umas calças de fazenda verde escuras com uns sapatos pretos. Aproximou-se de mim e perguntou-me se queria ir ver um cãozinho bebé que ele tinha no armazém da horta dele. Eu sempre adorei animais, e fiquei entusiasmada.

Aceitei o convite na esperança de lhe pedir o cão para mim. O armazém para o qual nos dirigíamos ficava num caminho de terra batida a poucos metros de minha casa, onde só havia hortas e montes, não habitava ali ninguém. Pelo caminho lá se encontrava uma ou outra senhora que nos cumprimentavam com um agradável bom dia. Eu estava feliz, era véspera de Páscoa, tinha tido notas razoáveis na escola, por isso ia ter todas as férias para brincar. Chegados ao local, eu não cabia em mim de ansiedade para ver o cãozinho, o senhor Manuel indicou-me o caminho e eu entrei. Era um baixo com uma porta de madeira velha que abria com uma corda azul, estava escuro, muito escuro, era um sítio frio, com um cheiro intenso a palha e a outras coisas que não sabia o que era, mas que eram muito desagradáveis, cheirava muito mal. O cão não estava em lado nenhum, olhei para trás para perguntar por ele, e o senhor Manuel que se encontrava à porta disse que ele estava deitado no meio da palha, mesmo ao fundo. Dirigi-me para lá, feliz, como uma criança a quem se lhe vai dar algo de especial. Mesmo antes de eu conseguir chegar à palha, a pouca luz que entrava pela porta desapareceu, alguém me agarrou e me derrubou no chão, um chão frio, duro, molhado. Caí de joelhos, mas agarram-me na cinta e viraram-me. Era ele, o meu vizinho, o simpático senhor Manuel que me viu crescer.

Estava assustada, o joelho doía-me, perguntei o que se passava, ele disse que estava tudo bem, que não ia demorar nada.

Em poucos segundos desapertou as calças e fazendo pressão sobre mim, obrigou-me a abrir as pernas. Comecei a gritar, a chorar, a espernear, não tinha nada na minha cabeça, a não ser conseguir que aquilo parasse. Na verdade eu não sabia o que se estava a passar. Abafou-me a boca com a mão e disse que se gritasse que ia ser bem pior. Enquanto isso ele rasgava o meu top branco deixando quase a descoberto os meus seios ainda por formar. Naquele momento deixei de sentir, deixei de existir, eu era uma pedra que estava ali, sem sentimentos, sem dor, sem vida. Todo o meu corpo tremia, como se eu estivesse deitada à chuva com frio, as lágrimas e a mão dele sobre a minha boca, abafavam o grito que me sufocava a garganta. O mundo para mim tinha acabado ali.

Ele ameaçou-me mais uma vez, dizendo que me ia destapar a boca e para eu não gritar se não ia ser pior, consenti com a cabeça como afirmação de que ia permanecer calada, e mal ele tirou a mão eu gritei o mais que pude, mesmo que isso tenha sido só um segundo. Naquele instante a porta de madeira abriu-se, lá ao fundo ouvi uma voz que me era tão familiar, a perguntar por mim. A minha boca continuava tapada, o senhor Manuel sem se mexer perguntou quem era, e a voz fininha fez-me reconhecer o meu amigo. Ele disse que andava à minha procura e que me tinham visto ir naquela direcção, mas estava escuro e não via se eu estava ali. Com um suspiro sentido, o senhor Manuel saiu de cima de mim, mas pronunciou baixinho, não digas a ninguém, se não vai ser pior.

Levantei-me num ápice, e corri para a rua. Estava coberta de palha, os olhos inchados de chorar, mal conseguia estar de pé. Corri para casa, com o meu amigo a correr atrás de mim a perguntar o que se passava, gritei apenas que tinha caído e me tinha magoado e desapareci o mais rápido que pude.

Escondi-me na garagem, no compartimento do fundo onde nem luz havia. Sentei-me no chão abraçando aos meus joelhos, tornando-me o mais pequenina possível, e chorei, chorei, chorei, até não poder mais. Não entendia o que era aquilo que se tinha passado, o que tinha sido aquilo? A minha mãe já me tinha avisado de coisas que infelizmente aconteciam a alguns meninos, mas não devia ser aquilo que me tinha acontecido a mim, pois não? É que essas coisas só acontecem nas cidades grandes, onde ninguém se conhece, aquele senhor tinha-me visto crescer. Estava confusa, cheia de medo, apavorada, com nojo de mim, a minha vontade era desaparecer, nunca mais ser vista por ninguém.
Mil e uma perguntas bombardeavam a minha cabeça… porquê a mim? Será que eu tinha feito alguma coisa para merecer aquilo?

Queria mudar de roupa, tomar um banho, tirar aquele cheiro tão intenso que me dava dores de cabeça, queria apagar a sensação das mãos dele no meu corpo, o peso dele sobre mim. Mas não podia. A minha mãe estava em casa, ia perguntar o porquê de eu ir tomar banho perto da hora de almoço e eu não ia saber mentir, nunca fui boa a mentir. Limpei o rosto á palma da mão e abri a porta que dava acesso ao interior de casa. Rezava baixinho para que a minha mãe não me encontrasse, o que lhe diria eu se ele me visse naquele estado? E se ela não acreditasse no que tinha acontecido? E se ela dissesse que a culpa daquilo tinha sido minha? Tantas perguntas na minha cabeça, tanto medo que eu sentia. Consegui entrar sem ser notada, e em menos de um minuto mudei de roupa, embrulhei a outra num saco de plástico e corri para a rua, atirando com o saco para o lixo. Tinha de tentar distrair-me, para parar de pensar no que tinha acontecido. A rua continuava deserta, as senhoras mais idosas mantinham-se no forno de volta dos folares, enquanto as outras preparavam o almoço. Voltei à garagem, a melhor maneira de me esquecer de tudo era pentear as minhas bonecas.

A porta da garagem da minha casa ficava mesmo de frente com a porta da garagem do meu vizinho, menos de dez passos as separavam. Sentada no chão rodeada pela Jéssica a Erica e a Cátia, as minhas bonecas preferidas, reparei que a porta da garagem da frente acabava de se abrir… era ele, era ele de novo, ali em pé, a olhar para mim. O meu sangue gelou, eu fiquei imóvel. Olhando para mim, mostrou o sorriso simpático de sempre e chamou-me. Como? Como poderia ele estar a chamar-me depois do que se tinha passado. Mantive-me quieta, sem reacção, enquanto isso na minha cabeça surgiam mais e mais perguntas… será que deva responder? Será que ele me vai pedir desculpa? Será que se eu não responder ele vai vir ao meu encontro, trancar a porta e acabar o que tinha começado? Só queria gritar, mas desta vez a voz ficou muda, e nada saía da minha boca. Ele mantinha-se ali, a chamar-me. Foi quando da janela do meu quarto a minha mãe me chamou, e embora eu me devesse sentir aliviada a verdade é que continuava com medo. Aproximei-me da porta para que ela me pudesse ver. Perguntou-me o que estava a fazer, e porque é que não tinha respondido ao senhor Manuel que me chamava já à alguns minutos, respondi-lhe que não me apetecia. Muito calmamente disse-me para não ser mal-educada e para ir ver o que ele queria. A minha boca abriu-se, queria dizer-lhe, gritar-lhe, que se ela soubesse o que ele tentara fazer que não me ia obrigar a falar com ele. Cabisbaixa e sobe o olhar atento da minha mãe, caminhei na direcção dele, sentia-me a caminhar para a morte, o coração batia tanto que quase me saía pela boca. Lá estava ele, parado, calmo como sempre. Mantive-me quieta, do lado de fora da porta, sem pronunciar uma única palavra. Mostrou-me então uma pomba branca, dizendo em voz alta para a minha mãe ouvir, que apenas me estava a chamar para me mostrar a pomba.
Recuei mal ouvi o bater da janela do meu quarto e corri de novo para a garagem, talvez ele ali não entrasse, se pudesse entrar, tinha tentado certo?

Aquele dia não brinquei mais, só queria estar sozinha, a questionar-me o que será que tinha feito de mal, para me ter acontecido aquilo.

A noite aproximava-se, e o meu pai acabava de chegar a casa, normalmente ficava feliz, aquele dia não reagi. Ele agachou-se ao meu lado tentando pegar-me ao colo, mas eu dei um salto tão grande que ele nem teve tempo de me tocar. Eu não suportava que me tocassem. Nunca mais queria que me tocassem, cada toque no meu corpo iria recordar-me as mãos daquele homem.

Os dias foram passando, e a criança que outrora brincava feliz na rua, deu lugar a uma que nunca saía da garagem. Depois daquele dia, nunca mais fui para os caminhos de terra fazer corridas de bicicleta, já não ficava na rua até ao anoitecer, nem jogava ao esconde-esconde. Temia que no meio de uma dessas brincadeiras, ele me pudesse apanhar. Todas as noites tinha pesadelos, sem saber porque, fiquei até com medo do meu pai. Durante cerca de duas semanas não voltei a ver o senhor Manuel, e como ele tinha filhas no estrangeiro supus que tinha ido visitá-las. Senti-me então, um pouco mais segura para finalmente ir brincar à vontade na rua, até porque a minha mãe já tinha questionado o meu comportamento.

O sol brilhava, o céu estava limpo e a chegada das andorinhas denunciava o bom tempo. Peguei na bicicleta e rendendo-me à minha imensa vontade, pedalei sem destino, o mais rápido que pude. Amava a sensação do vento a bater-me na cara, sentia-me livre, capaz de fugir do mundo. Já cansada e de regresso a casa, encostei a bicicleta na parede e sentei-me no banco de pedra que havia na minha rua, com os olhos postos no telhado, admirava as andorinhas a construir os seus ninhos, o meu pai não ia gostar daquilo, elas manchavam as paredes, mas eu era sua defensora dos animais, não ia deixar destruir as suas casinhas.

Sentia-me observada, e baixando a cabeça devagar vi que do outro lado da rua estava o meu vizinho. Quando é que ele teria regressado? Será que nunca tinha ido, e esperava apenas que eu saísse de novo? Corri para casa. Na altura a minha mãe estava de férias e vendo-me entrar tão assustada perguntou-me o que se passava. Eu tinha ali o momento ideal para lhe contar, mas já tinham passado alguns dias, já não valia a pena contar, até porque já estava feito, já ninguém podia apagar o que se tinha passado. Fingi que não era nada e fui ver desenhos animados, ela também não insistiu. De poucos em poucos minutos ia espreitar por de trás da cortina para ver se ele se tinha ido embora. Não o via, mas a porta da garagem estava aberta. Tinha imensa vontade de ir correr, de ir lavar a roupa das bonecas, de brincar. Nunca fui uma criança de estar quieta, a minha mãe até me chamava maria rapaz, pois eu andava sempre em cima de paredes e a correr de um lado para o outro. Depois de almoço a minha mãe pediu-me para ir brincar lá para fora para poder limpar a casa. Espreitei para a rua e havia muitas senhoras sentadas à sombra com o seu croché no colo. O meu amigo também andava por ali e por isso fui brincar. Normalmente onde havia gente sentia-me segura, tinha a certeza que pelo menos ali ele não se podia aproximar muito. Erro meu. Ele apareceu e aproximando-se de mim e do meu amigo perguntou se queríamos bolachas que ele tinha lá na garagem ao pé da pomba. O meu amigo foi a correr todo contente à procura das bolachas, fiquei com medo que ele lhe fizesse o mesmo e corri atrás dele, parando à entrada da porta. Pedi-lhe para sair, disse-lhe que tinha bolachas melhores em minha casa e para sair dali. Ele não me dava ouvidos, e mantinha-se lá dentro. Esperei cá fora sempre de olho nele, e quando ele saiu disse-lhe que lhe dava todas as bolachas que ele quisesse, mas que nunca mais fosse sozinho para ali. Chamou-me maluca e foi brincar. Vi logo que ao ele não acreditar que ele era perigoso, mais ninguém acreditaria. Mas o senhor Manuel talvez tivesse medo de alguma coisa, porque ele pediu que eu não contasse a ninguém, se não podia contar a ninguém é porque ele tinha medo. Essa noite quase não dormi a pensar nisso. Se eu estivesse acompanhada ele não me podia fazer nada, e parte do meu medo desapareceu.

Nos dias seguintes brinquei na rua, sempre ao pé de casa, e só quando as senhoras por ali andavam. Todos os dias, perto das duas da tarde, o senhor Manuel saía pela porta da garagem, sempre com o carrinho de mão e convidava-me a acompanha-lo até a sua horta, oferecendo-me um chocolate como recompensa. Recusei sempre, e pegava na bicicleta e pedalava o mais rápido que conseguia para o sítio mais longe que podia. Uma parte de mim pedia para parar de brincar na rua, a outra pedia para ser forte, eu tinha de vencer o medo que sentia de cada vez que o via, embora as vezes fosse difícil. A pouco e pouco cada vez que ele me abordava chegava mais perto, e eu recuava, talvez ele estivesse a ganhar um certo à vontade comigo, sentido que eu lhe ia corresponder de alguma forma, pois eu tinha parado de fugir. Percebi que ele não me ia agarrar no meio da rua, até porque eu corria mais que ele. O que ele pretendia ela aliciar-me para o cativeiro dele, que ficava lá na horta, no meio do nada.

As férias da minha mãe estavam a acabar, e por isso eu aproveitava os últimos dias para brincar, porque depois tinha de regressar à escola. Já me tinha habituado à visita do senhor Manuel todos os dias, sempre com a mesma conversa. Já tinha criado um escudo em mim, já não tinha medo. Estávamos no fim do mês de Maio, já tinham passado quase dois meses do sucedido, a minha mãe tinha dito que essa tarde íamos à cidade, às compras. Fiquei super contente e vesti o meu vestido cor-de-rosa, com margaridas brancas. Estava à espera da minha mãe na rua, sentada no banco, enquanto balançava os pés que ainda não chagavam bem ao chão. O senhor Manuel apareceu sem que eu desse conta, e agarrando-me no braço com alguma força, disse que eu tinha de ir com ele, se não ia arrepender-me. Fiquei gelada. Não respondi, não tirei os olhos do chão. Da janela a minha mãe gritou por mim e eu subi as escadas de mármore que tantas vezes me tinham feito cair. Muito delicadamente perguntou-me o que ele me queria. Disse-lhe que não me queria nada, e ela segurando-me nos braços pediu-me para parar de mentir. Senti que tinha chegado a hora, eu não podia mentir mais, não podia guardar mais aquilo para mim, tinha chegado o momento. Sussurrei que me tinha pedido para ir ter com ele. Ela mandou-me ir, disse para não ter medo, que ela ia uns metros atrás de mim. Fui então atrás dele, cheia de medo, a tremer e com vontade de chorar, mas não podia, agora não era hora de chorar. Ele avistou-me, sorriu e acelerou o passo, comigo atrás dele, e a minha mãe escondida mais atrás. Quando cheguei à horta ele já se encontrava dentro do armazém onde me tinha agarrado. Aquele dia, em vez de ser eu a entrar pela porta velha de madeira, foi a minha mãe. Não sei qual foi a reacção dele, nem o que se falou, a minha mãe esteve lá pouco tempo e saiu segurando-me na mão. Pediu-me pelo caminho que lhe contasse tudo, sem mentiras, só assim me poderia ajudar. Aquele grito sufocado que eu tinha na garganta, aquele choro, o medo, o nojo que cheguei a ter de mim própria, deram lugar a uma voz tímida, baixinha, contando tudo que se tinha passado. Senti um alívio imenso por ter tido coragem de falar, mas nada me garantia que aquilo tinha acabado. Nessa noite, sem eu saber a minha mãe tinha contado ao meu pai, só dei conta quando no meio da cozinha o meu pai gritava que o ia matar, que nunca mais ia tocar em ninguém, que aquilo não ia ficar assim. Em pouco menos de uma hora, estava em minha casa a minha avó materna e a esposa do senhor Manuel, a pedir desculpa pelo sucedido, que estava envergonhada, que não contasse á policia nem o matasse, que ela lhe garantia que ele nunca mais se ia aproximar de mim. Não sei o que fez calar o meu pai, nem o que o deteve, mas ele não o matou, e a polícia não soube de nada. A minha mãe explicou-me que aquilo tinha sido uma tentativa de violação, e que a culpa em nada tinha sido minha. Nunca mais se tocou no assunto, e eu aos poucos fui superando os meus pesadelos, o meu medo de brincar sozinha na rua. Conforme fui crescendo fui vendo que a culpa não tinha sido minha, que eu não podia ter feito nada para evitar aquilo, pois de maneira alguma eu poderia prever que aquilo me acontecesse. A culpa daquilo era dele, de um senhor aparentemente amável e amigo da família, de um senhor que deveria ter um transtorno psicológico gravíssimo. Soube mais tarde que ele tentara fazer aquilo a pelo menos mais uma rapariga, há alguns anos atrás. Foi um procedimento demorado, com altos e baixos que deixa sempre marcas, más recordações. Perdi um pouco da minha pureza, uma parte da minha infância foi roubada. Aprendi a conviver com o que se tinha passado, e embora tenha superado, confesso que ainda hoje, quando vejo casos de rapto ou violação na internet ou jornais, é inevitável não imaginar que poderia ter sido eu. Imagino muitas vezes a dor que ninguém pode curar de um menino ou menina violados, a dor dos pais de se sentirem incapacitados. Eu falei, talvez um pouco tarde de mais, mas falei. Toda a gente deveria falar, embora eu saiba que é difícil, até pela vergonha que sentimos, como se os culpados fossemos nós. A minha mãe desconfiou de tudo durante as férias dela, quando atrás da janela o via sempre a aproximar-se de mim, não sou uma pessoa de fugir das pessoas e ela achava estranho aquele meu comportamento. Infelizmente muitas mães não vêm, era tão bom que as crianças não esperassem anos para falar. Que tivessem coragem, que víssemos que a vergonha é deles, não nossa.

Cruzei-me com o senhor Manuel durante mais quatros anos, cada vez que ele me via, ou se refugiava em casa, ou virava a cara. Nunca mais me olhou nos olhos e eu agradecia por isso. Acabou por falecer, em casa de uma filha, fora do país. No dia que soube da sua morte, não senti pena, senti raiva. Raiva por ele não ter sofrido mais, eu queria que ele tivesse tido uma morte mais lenta, mais dolorosa. Pedi perdão a Deus pelos meus maus pensamentos, mas eu não conseguia ter compaixão ou pena, ou até indiferença, ao invés disso, tinha raiva, ódio, por alguém que me causou tanto mau estar. Isso marcou-me.

Desejei a partir daquele momento, que todos os pedófilos tivessem uma morte triste, lenta, dolorosa, a pior das mortes. Serei egoísta? Uma má pessoa por pensar assim? Não sei, mas sei o que sofri, o quanto aquilo me marcou. Talvez Deus tenha ajustado as contas com ele, e com essas pessoas todas que fazem o que ele faz, espero que sim. Dormi mais descansada a partir dessa noite, com a certeza de que ele não ia voltar em momento algum para me atormentar. Hoje sou uma pessoa relativamente feliz, a quem nunca contei o sucedido. Relembrar-me disto faz-me doer a alma, mas ao mesmo tempo orgulhar-me de mim por ter falado, por ter uma mãe atenta que me conhece melhor que ninguém. E por me terem dado o espaço suficiente para eu superar um trauma que muita gente não consegue.

A todas essas pessoas, um abraço do tamanho do mundo, e não se esqueçam, falem, porque não estamos sozinhas.

PORDoce Pausa
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