Quando eu esquecer de vez

“Não olho para trás porque sei que me irá custar tudo aquilo que foi e não mais será. Não escuto o que vem de fora, pois o interior não erra, na essência está a verdade. Mas também não quero de todo esquecer o que vi, disse ou pensei. Não quero olhar para trás, mas eu olhei na esperança de te ver, sentir e quem sabe tocar. Serás sempre eterno na minha memória, serás sempre tu aquele que me fez amar. Não serei eu diferente das outras, que algum dia já viveram na sensação constante de queda. Pois, para mim, o amor é um precipício, o único onde desejamos cair. Eu cai e não foram poucas as vezes que desejei que a queda não terminasse. Os teus braços eram o meu porto de abrigo, no teu ombro chorei, ri e encostei só porque sim. Hoje nada mudou, a não ser o facto de eu não me lembrar.

Em determinados momentos os teus olhos transmitiam tristeza, nos momentos restantes, segundo tu, não me recordo. Cada vez que me ausento, fazes questão de me detalhar cada momento que perdi e essas foram as melhores histórias que ouvi em toda a minha vida. Cada detalhe era como se estivesse a ouvir a história de outra pessoa qualquer, fazias com que tudo soasse menos trágico. De entre todos os momentos que reservei à leitura, os momentos que dispensavas para contar as tuas histórias eram os meus preferidos. Sim…as tuas histórias onde algures eu de mim lembro.

Junto à jarra de flores na mesa de centro que me ofereceste, podes encontrar o meu bloco de notas. Preenchi cinquenta páginas com um recado para ti. Um único recado. Só preciso dar-te um único recado, mas preciso que o captes com a mesma intensidade com que o sinto e quero transmitir. Ainda assim, na minha cabeça nunca irá fazer sentido que cinquenta páginas sejam suficientes para preencher com uma única palavra e fazê-la sobressair. Mas foi a única forma que encontrei para eternizar aquilo que, um dia, vou deixar de conseguir pronunciar. Eu amo-te, sempre te vou amar. Cada vez que eu me esquecer, relembra-me. Cada vez que eu gritar, relembra-me quem és da única forma possivel…a forma que só tu sabes. Promete-me que me perdoas cada vez que te esquecer. Cada vez que o meu olhar estiver apático. Ou cada vez que eu simplesmente desmaiar. Aquele Natal onde deixei de te ver, fez-me perceber a importância dos momentos em que tinha acesso à tua pessoa. Não é fácil ter acesso ás pessoas no dia a dia normal, quanto mais quando a escolha não é nossa.

Descobri que tens mais dons do que os que conhecia. És bom ouvinte, és bom a expressar os teus sentimentos, és um artista, és um bom cantor, descobri porque a minha situação assim o permitiu. Precisaste ser de tudo um pouco para me fazeres feliz quando eu, por instantes indeterminados, deixei de saber quem eras. Infelizmente eu só irei piorar, e desculpa se sou um incómodo, mas é nos teus braços que desejo partir. Contigo nunca vou desistir, vou lutar até o meu outro lado decidir que não mais aqui pertenço.

Maldita doença.”


PELA WEB

Loading...