Quando eu acordar …

Quando eu acordar quero voltar a ver-te. Quero estar novamente no nosso cantinho, contigo a abraçar-me. Não quero mais ter pesadelos, não mais quero aquela imagem a perturbar a minha mente. Só te queria ter do meu lado, que aquela noite nunca tivesse acontecido. Nunca vou entender porque aquele momento teve de acontecer connosco. Estávamos tão felizes. Tínhamos acabado de nos mudar para a nossa casa, casámos e estavamos a tentar ter um filho…e conseguimos. Só descobri que estava grávida no hospital, na noite do acidente. Quatro semanas. Fiquei extremamente feliz com a notícia e por ambos, eu e o bebé, termos sobrevivido. Estava ansiosa para te contar, queria levantar-me da maca naquele preciso momento, mas não me deixaram, pois ainda estava fraca. Fiz todos me promoterem que não te diziam nada, queria ser eu a dizer.

No dia em que o médico me deu alta, o meu mundo desabou. Estive quatro semanas internada, fizeram-me crer que tu também e que não te podia ver pois estavas demasiado fraco ainda. Aceitei a justificação…nunca me passaria pela cabeça. Saber que estavas vivo deixou-me descansada. Mas afinal… vivi uma mentira durante quatro semanas. No dia em que recebi a alta, antes de sair o médico entrou no meu quarto e sentou-se perto de mim. A sua cara não era das mais agradáveis, trazia consigo uma expressão preocupada e hesitou bastante antes de começar a falar. Foram imensos os pensamentos que ocorreram na minha cabeça.

“O seu marido não sobreviveu…”

Desmaiei. O meu corpo bloqueou. Acordei no dia seguinte a sentir-me completamente em baixo. Os médicos disseram-me que a minha tensão baixou. Eu quis mais explicações. O médico disse que morreste no local do acidente e foi imediato. Que o provável foi nem teres sentido qualquer dor. Todos os momentos futuros nos quais nos imaginei ficaram distorcidos, como se tivesse vivido uma falsa felicidade, achando que ainda cá estavas. Até me arrepio só de relembrar. Explicaram-me que não me poderiam ter contado a verdade naquele momento, pelo bem da minha saúde e do bebé.

Vivi momentos de plena insanidade. Quis matar o bebé, culpando-o por teres partido. Penso que o meu maior medo era ele fazer-me lembrar de ti constantemente. Vivi um longo mau bocado. Até que, com ajuda, me recompus. Sim…precisei de bastante ajuda. Foste o meu tudo, melhor amigo, namorado, marido. Conhecia-te desde sempre. Dói-me que nunca conheças o nosso filho e que ele nunca conheça o maravilhoso pai que irias ser.

Hoje ele tem 15 anos, é um rapaz lindo e muito inteligente. Fala de ti todos os dias e sabes que mais? Não me incomoda. Gosto muito até, faz-me sentir que vocês se conheceram, que fizeram parte da vida um do outro. Sempre fiz questão de lhe falar de ti, mostrar fotos e contei exactamente o que te aconteceu para hoje não estares cá connosco. Todos os dias tenho a esperança de te ver ao acordar.


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