Por que nos enganamos tanto com algumas pessoas?

Por que aquela pessoa maravilhosa deixou de gostar de você? Como a amiga que você pensava ser tão fiel teve coragem de fazer o que fez? E aquele  funcionário que parecia tão digno de credibilidade, como pode ter se mostrado tão irresponsável  e negligente a ponto de precisar ser dispensado por pura incompetência?

Questões como as elaboradas acima nos assombram durante toda a vida e sentimentos de arrependimento, mágoa e traição são constantes nessas ocasiões.

…mas o que realmente teria acontecido?

Um dos grandes erros, já tratado em um texto anterior, é achar que as pessoas que nos circundam possuem valores e objetivos semelhantes aos nossos.

Seja por falta de empatia, ingenuidade ou puro excesso de vaidade, tendemos a acreditar que o comportamento do outro será similar ao que teríamos em situações parecidas ou, o que é pior, ao que idealizamos que teríamos.  Então, se eu sou pontual e fiel às minhas promessas e compromissos, espero que o outro também seja quando, na verdade, a pessoa pode não dar nenhum valor a palavra dita. Não são raras, por exemplo, pessoas que concordam com o solicitado sem nenhuma intenção de cumprir o prometido. Acontecem também casos de pessoas que “acham” que farão enquanto concordam, mas que logo em seguida elegem outras prioridades pessoais, inventam desculpas para si mesmas e simplesmente ignoram o assunto.

Estão erradas as pessoas que assim o fazem ou estaria errado aquele que vivência repetidamente esse tipo de situação e permanece esperando responsabilidade de irresponsáveis, compromisso de quem não tem palavra, fidelidade de quem já se mostrou infiel por diversas vezes?

Um segundo aspecto que nos cega frente à realidade é o envolvimento emocional…

Tendemos a manter relações mais flexíveis e favorecer pessoas de quem gostamos mais. Somos mais tolerantes e, muitas vezes, nem somos capazes de enxergar aspectos de realidade que aparecem repetidamente para nos avisar que aquela opinião que temos com relação à pessoa pode não ser totalmente verdadeira. Nesse caso enquadram-se, por exemplo,  os apaixonados que vêem o mundo conforme ditam seus sonhos e reações físicas. A realidade pode simplesmente ser ignorada ou, quando se apresenta de forma abrupta, é racionalizada e criam-se desculpas e justificativas para a “falta” do ser amado. Manipuladores também se aproveitam das brechas emocionais das relações afetivas e, só o tempo consegue mostrar a verdade.

Temos ainda uma tendência a supervalorizar nossos julgamentos e escolhas como acertadas e inquestionáveis…

É o que acontece com quem contratou o funcionário que não merecia credibilidade, mas que o continuou tolerando porque achava que ele tinha pontos positivos que justificavam sua presença quando, na verdade, os pontos negativos já tinham se mostrado imensamente superiores. Nessas situações temos que lidar com a necessidade de mudanças, com o prejuízo financeiro, com o orgulho ferido de ter que engolir os dissabores que restaram da relação e, algumas vezes, até da falta de caráter. Nas relações afetivas isso aparece nos trâmites do divórcio, na administração dos bens, no que será feito para lidar com as crianças nessa fase de transição.

O engano maior, entretanto, parece estar relacionado à SUBVALORIZAÇÃO da convivência e do tempo antes da criação de REAIS convicções.

Uma pessoa não pode ser considerada de confiança após um mês de convívio. Não amamos após três meses de namoro. Não devemos investir financeiramente em quem efetivamente não mostrou merecer. E é por isso que nos sentimentos traídos, magoados e ressentidos quando tudo dá errado. O engano, porém, é direcionado ao alvo do sentimento e acaba por tornar-se “quase” um inocente frente ao excesso de conteúdo que projetamos como certo e inquestionável. A realidade, entretanto, nos mostra que lidávamos com estranhos. Normalmente aquela pessoa já era irresponsável, o traidor já traiu antes, o canalha já arrasou outras vidas manipulando os pontos fracos de quem esteve por perto. Mas nós, cheios de verdades, não nos permitimos o tempo do entendimento e do real conhecimento do outro. É fato ainda, que na maioria das vezes, nós já sabíamos a verdade, mas a ignoramos de alguma forma.

O que acontece?

Nós precisamos dos laços, precisamos das pessoas, do trabalho e de votos de confiança no início das relações. Entretanto, da mesma forma que temos escolhas baseadas na experiência e na intuição (o cérebro nos avisa com sinais que nem imaginamos), também não podemos nos esquecer que nossas escolhas nem sempre são tão racionais quanto parecem e, até mesmo a escolha que parecia acertada, poderia ser uma bela repetição de auto sabotagem… é dureza, mas é fato.

O que fazer?

Nossa vida e experiências anteriores nos alertam e nos tornam mais sensíveis nas escolhas. Mas também precisamos da maturidade para enxergar o erro, para virar a página, para nos afastarmos de pessoas tóxicas. É preciso pensar sobre o que realmente mantinha aquela relação.

Apenas assim serão possíveis tempos de paz com pessoas que merecem o que temos para lhes dar e de quem podemos receber real afeto.

Da próxima vez em que você se sentir traído após o fim de qualquer tipo de relação, lembre-se da sua responsabilidade e de todos os sinais que teve antes da gota d’água. Isso pode ajudar a diminuir a raiva e a frustração na hora de continuar, pois você poderá confirmar que nada foi tão repentino quando parecia. Aquilo já acontecia, só precisava de confirmação. E, o mais importante, o conhecimento da realidade sempre será a melhor chave para a abertura de novas portas.

Virar a página e livrar-se de relações tóxicas deve ser um grande motivo de prazer e realização. Chore, revolte-se, tenha o seu tempo para a digestão do ocorrido. Mas passado esse momento, seja bem-vindo (a) a um mundo mais consciente.

PORJosie Conti
FONTEConti Outra
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