Por que mentimos?

A mentira, parecendo que não, enriquece-nos: torna-nos mais criativos e pragmáticos. Mas em contrapartida, para que seja verosímil, precisa de ser vivida. Não estou a incentivar que mintam; estou apenas a dizer que a mentira estimula, recria e intersecta. O que as pessoas ainda não distinguem é uma mentira de uma desculpa – esfarrapada, então, ainda pior. Uma mentira pode durar uma vida inteira. Enquanto as desculpas são efémeras: duram até que alguém se chibe.

Eu já menti. Aliás, quem não? Ainda hoje, sempre que preciso, sempre que posso e a realidade me apoquenta, minto. Mas, quando o faço, tenho também eu, especialmente eu, de saber viver com ela. E, como qualquer forma de vida, também ela precisa de ser saciada. Sustentamos a mentira para que ela nos sustente a realidade. Se não acreditarmos, nós próprios, nela, quem acreditará? O que muitos desconhecem é que a mentira existe nos socalcos da nossa existência. A frase «Vai correr tudo bem» é a prova de que a mentira nos enaltece. Pressupomos que sim, então afirmamos. Mas será verdade? Acreditamos, queremos acreditar que sim.

Eu, por exemplo, nos tempos do ciclo, não almoçava na cantina – preferia uns cachorros e umas fatias de pizza do bar. Então, quando a minha mãe me perguntava o que tinha sido o almoço e eu não estava preparado para dar uma resposta, ficava a pensar e dizia uma ementa aleatória: batatas com lulas. O problema é que o cenário repetia-se inúmeras vezes e a ementa ficava escassa. Era «batatas com lulas» todos os dias – ainda hoje, quando nos sentamos à mesa e o jantar é realmente batatas com lulas, rimo-nos. A certa altura, comecei a prestar mais atenção à ementa e, de certa forma, a estar preparado para dar uma desculpa. E é nesse exacto momento, em que tomamos as nossas desculpas como verdades, que a mentira acontece. E mesmo quando não almoçava na cantina, tinha a ementa na ponta da língua. Ou melhor que isso, sabia a ementa e ainda lhe atribuía um defeito: estava cru, ou insosso, ou tinha pouca carne – algo que, aleatoriamente, tornasse o cenário credível.

É este tipo de mentiras que, sem querer, nos tornam mais criativos e atentos, obrigam-nos a ser o interlocutor e o ouvinte, ocupar duas posições distintas, saber ser a pessoa que mente e a pessoa que compra a mentira. Ou a antecipá-la.

A mentira recria-nos. Quando a realidade nos apazigua, a mentira alivia. Quando o coração está em baixo, a mentira cura. Quando o futuro nos preocupa, a mentira enaltece-nos. A única condição adjacente à mentira é que, quando mentes, se mentires, certifica-te que não precisas da realidade para nada.

Por isso, se a vida espernear e o coração te afligir, mente.

Vai correr tudo bem, acredita.


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