Podíamos ser mais…

Quando chegaste eu pensei que eras o meu mundo, pensei que só precisava de ti para ser feliz e me sentir completa. Pensei que bastavas. Não ponderei que até tu precisasses de reforços de vez em quando,  precisasses ser regado e acarinhado. És quase como um trabalho, requeres tempo, paciência, vontade e muita maturidade. Se disser que inicialmente sabia tudo isto, minto. Só a vivência nos faz perceber e conhecer a fundo este sentimento que tanto nos desafia. Só a vivência pode ditar se és portador de tal sentimento, de forma humilde e genuína.

Há quem fuja dele e há quem sinta uma necessidade enorme de o viver todos os dias, todos os minutos de forma extremamente intensa, seja ou não recíproco. Pessoas que dependem de companhia, têm medo de estar sozinhas, como se a outra pessoa fosse o que as faz viver. Nunca me deparei com um pensamento tão errado. Primeiramente nós devemos ser o que nos faz viver e não os outros. Essas pessoas não respiram sem um(a) companheiro(a). Como vão amar outros (bem), sem amarem primeiro a vossa essência?

Geralmente a visão do dependente não é a mesma daquele de quem depende. Analisando uma situação em que a relação está na fase final, devido a tanta possessividade. A visão do primeiro é turva. Na sua mente ele é feliz, ama muito o outro e pensa que o outro sente exactamente o mesmo, por isso, continuará a agir da forma que sempre agiu. É confuso. Como se de vez em quando se lembrasse (devido aos avisos do companheiro) que tinha de ser menos “colas” e menos alguma outra coisa, mas depois também tem os momentos (quase todos) em que não se sabe controlar. Parece que não tem noção por ser algo tão natural. O medo de perder alguém faz com que a pessoa seja possessiva (pensando mostrar preocupação), ser ciumenta (pensando mostrar amor), ser impulsiva (pensando mostrar pró-actividade). A pessoa que precisa desesperadamente de atenção e amor (seja ele qual for), não se irá aperceber desses factores. Já na visão do outro, esse vê tudo com clareza e passa por um processo lento (ou não) de mudança. Inicialmente tenta fazer o outro entender que não o está a deixar respirar, e isso repetesse várias vezes. Acaba por chegar ao ponto das discussões, onde o (chamemos) necessitado perde o controlo da situação e tudo aquilo que fazia (mal), irá fazer a duplicar, pois na sua cabeça acha que o melhor será fazer mais do mesmo, que é isso que o outro quer. Assim, tudo piora e começa a ser ignorado pelo não necessitado, na tentativa de fazer com que se aperceba.

Em muitos casos acaba por ser desenvolver um caso de depressão, noutros casos mais felizes a pessoa dá a volta por cima e aprende a viver sozinha, sentindo-se bem com isso.

Nos dias que correm casos como este ocorrem muito. Acredito que vivemos numa sociedade demasiado corrida, preocupada e despreocupada ao mesmo tempo, com certas coisas que outrora eram consideradas importantes. Cada vez mais as pessoas se fecham nelas mesmas e imploram por algum conforto que as salve, fazendo com que isso as torne dependentes desse conforto (não delas mesmas) e fracas. Esquecem-se que algures ainda existe uma força dentro delas, que primeiro têm de se amar e só depois amar os outros e que não dependem de ninguém para serem felizes. Contudo, generalizando, compreendo o porquê de isto acontecer. Caminhamos para que cada vez mais existam pessoas pouco confiantes, dependentes e com pouquíssimas oportunidades.

Hoje em dia se não te chegares à frente (e quem sabe pisares alguém) já foste. O pensamento de que, se não se passar por cima uns dos outros não vencemos…errado. Chegaremos mais longe se nos ajudarmos e unirmos. Só não sei quando a humanidade irá chegar a essa conclusão.