Vive o presente

O dia amanheceu e trouxe com ele o brilho do sol, os seus raios atingiram diretamente a minha janela e a luz iluminou o meu quarto, foi nesse momento que me recordei do brilho dos teus olhos.

Durante o que parecia uma eternidade, abracei-te e guardei-te junto do meu coração, ingénua, nunca pensei que o irias despedaçar. O amor deixou de existir entre nós, passou de plural a singular, apenas é conjugado no eu.

Agora sofro com o karma, criticava as pessoas que diziam viver assombradas pelo seu passado, neste momento, isso está a acontecer comigo. Novas pessoas surgem, aventuras e preocupações e eu, estando presa ao passado, deixo isso tudo passar por mim como um comboio sem paragem a minha estação. Continuo vivendo e revivendo o passado, desprezando o presente e fugindo do futuro.

Isto – como é óbvio – leva-nos a pensar que o passado nos acompanha todos os dias, este reflete-se nos objetos, barulhos e na brisa que assola a tua face. Logo, o lema de vida “vive o presente” não faz sentido algum, visto que o presente se vive em conjunto com o passado, eles alugaram um t2 espaçoso à beira mar- o perigo é mesmo esse – o exterior é esplendoroso, parece bonito, promissor e acolhedor, mas o interior está assombrado pelas imagens do passado. Podes ter um presente bonito, um futuro glamoroso mas só te interessas pelo passado desfeito.

É do futuro que eu tenho mais pena, mora sozinho na rua, nos cantos mais recônditos da cidade enquanto aguarda para se solidificar em forma de memórias e experiências, e já sofre com a indiferença do presente e erros do passado. É um ciclo vicioso, à medida que os dias vão passando vais perdendo oportunidades, então, numa forma de compensação vais tentar recriar aquilo que aconteceu até ao ínfimo pormenor, mas nunca será a mesma coisa. É apenas uma forma de te castigares e martirizares.

É aqui que me questiono, será que o presente é uma forma de reviver os erros do passado, apenas com algumas alterações? Ou será apenas uma forma de fazer o futuro sofrer por antecipação? Por algum motivo, passado e presente começam pela mesma letra.

O que nos atormenta está mesmo ao virar da esquina, muitas vezes não abrandamos as emoções e o choque é frontal e inesperado – ou esperado porque queríamos mesmo bater de frente, era necessário. São demasiadas questões que permanecem sem resposta.
Depois de escrever estas frases, chego à seguinte conclusão: falar do passado é difícil, sempre foi, aqueles verbos no pretérito perfeito e imperfeito, difíceis de conjugar e compreender. Quanto ao presente, nunca achei graça. Mas o futuro, esse é diferente, apesar de ser facilmente compreendido, é misterioso. Também gostava do gerúndio, mas esse não entra nas conjugações da vida. É certo que preferia dizer que vou “amando” e “vivendo” em vez de dizer que “amei” ou “vivi”. Seria melhor uma vida em que as coisas vão acontecendo e são saboreadas lentamente. Essa vontade e este texto, infelizmente, não passam de utopias.


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