Pedaços de mim…

Gostaria de estar a abordar-te pessoalmente, mas a minha cobardia sobrepõe-se à minha vontade de falar.

Acho que passei toda a minha vida com medo de falar, receando o que poderiam os outros pensar de mim.

Desde menininha que aprendi a engolir todos os nós de arame farpado, todas as adversidades, acho que se os livros não me tivessem proporcionado o amparo que necessitei, era algo desequilibrada neste momento.

Cada página virada, cada palavra memorizada e cada sonho projetado moldaram o meu ser e aos livros devo praticamente uma parte do tudo que me consiste.

Quando estava sozinha, sentada no chão amarelo de tijoleira riscada e achava que o silêncio era a minha melhor companhia, os livros foram os meus melhores amigos e foi por eles que me delicio enquanto escrevo, foi por eles que esta paixão natural pela escrita surgiu dentro de mim.

No fundo ansiava ajudar crianças como eu, ajudar meninos e meninas que passam uma infância completamente alienados do mundo porque os habitantes do seu mundo não os acolhem de braços abertos, queria ser uma escritora, porque noutros tempos foram aqueles escritores de quem bebi inúmeras palavras que me salvaram da solidão.

Os livros levavam-me a sítios nunca antes conhecidos, levavam-me aos extremos das minhas emoções, com eles fui amada e desejada, ri e chorei….

Se sou como sou, primeiramente o devo aos livros que me amaram e abraçaram muito antes dos outros o fazerem.

Apesar de me enriquecerem de maneiras inimagináveis, familiarizei-me com a solidão e com o silêncio, acabando por nunca ter aprendido a gritar quando é necessário.

Desde sempre fui pisada, humilhada e abandonada, na minha cabeça eu merecia ser tratada assim, achava que deveria ter feito algo de muito mal e estava a ser punida pelas minhas asneiras, hoje vejo isso de um prisma diferente.

Adoro conversar, adoro debater sobre qualquer assunto, mas ainda não estou muito á vontade em fazer juízos de valor, ou então em falar em voz alta algo que está nos meus recantos mais escondidos.

Obrigo-me a isso constantemente pois não sou mais a menina que se esconde ao lado da cama e devora todos os livros possíveis e imaginários.

Leio imenso, mas sei que esta vida é a real e que tenho que aprender a vivê-la para que não seja constantemente queimada por um fogo que não me pertence!

Por vezes quando cerro os olhos com força para que as lágrimas não rolem, relembro a mim própria que do outro lado do mundo alguém poderá estar a fazer exatamente o mesmo, mas isso não me dá alento algum porque cada um sente as suas dores a níveis diferentes. O que para mim pode ser uma dor mínima para outro alguém pode ser a maior dor que se possa imaginar.

Quero soltar todas as palavras que estão presas a mim com todas aquelas malditas amarras, estou enclausurada em mim e quero deixar de estar!

Não sou perfeita, nunca serei e não espero ser!

Gosto de cometer os meus erros, gosto de subir e alto e cair de cara no chão porque é assim que aprendo e foi dessas quedas que retirei as maiores lições desta vida de almas terrenas.

O amor por ele foi algo que me deixou completamente fora de mim, entreguei-me por completo a um amor que por momentos me salvou de uma clausura, de uma auto-destruição e acabei por perdê-lo. Mesmo tendo perdido alguém que me fazia tão bem e que refletia o melhor de mim, construí um carinho tão forte por ele que gostaria de abraçá-lo contra o meu peito para sempre.

Vi o quanto ele sofria por alguém que nunca sofreria tanto por ele, vi-o derramar todas as suas emoções por alguém que nunca limparia as suas borradas, vi o quanto ele se destruía interiormente por alguém que nunca o ajudaria a construir a sua vida sob as ruínas… Assisti a tanto calada enquanto que o meu corpo só desejava descontrolar-se e permitir-se chorar.

Depositei tantas esperanças nele que só desejo que ele seja feliz, desejo que tu o faças feliz!

Não te conheço e talvez nunca virei a conhecer, mas apenas peço que por mais que o desiludas sem querer o ajudes a reconstruir o que há muito ele destruiu.

Não te deixes enganar por essa face de garotinho, ele é muito mais do que aquilo que dizem dele, ele não é uma criança, ele apenas é descontrolado e emotivo demais. Mas se ele te escolheu tenho a certeza que foi a melhor escolha e espero um dia estar ao lado dele e dar-lhe os parabéns por te ter.

A vida é tão diferente daquela que projetamos em crianças!

Fui precipitada durante toda a minha adolescência, deixei que as memórias do passado me trespassassem a mente e que o desejo de um futuro melhor me enchesse de curiosidade. Passado e futuro são algo inalcançável, devemos viver o presente com toda a intensidade possível e espero que lhe ensines isso porque ele colocar-te-á em primeiro e tudo e se necessário for fará os maiores sacrifícios em prol da vossa relação.

Necessitas de saber o preguiçoso que ele é, apenas lhe interessam os jogos de computador…

Quando te irritares pelo facto de ele passar horas em frente ao ecrã, abraça-o por trás e sussurra-lhe ao ouvido que te apetece dar um passeio e se essa abordagem não resultar, agarra-o e arrasta-o mesmo contrariado, não deixes que ele seja consumido por um ecrã quando a verdadeira felicidade está no mundo lá fora, está em ti e nos olhos dele quando olham os teus!

Acho que necessitava de escrever-te, necessitava de libertar tudo isto para que consiga finalmente despedir-me de quem tanto amei…

Necessitava de uma despedida como deve ser e visto que com ele é quase impossível dialogar devido á sua falta de bom senso, dialogo contigo que és ainda uma sombra nas nossas vidas mas que reconheço que não tardarás a chegar.

Gostaria de fazer do futuro passado e do passado futuro e em tudo isto aproveitar o presente sem aproveitar!

PORSofia Sousa
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