PEÇA SOLTA DA PASSAGEM SECRETA!

Tenho-te trazido comigo. Não todos os dias nem no peito, apesar de ser vasto e denso, mas na vontade. Daquela bruta. Tão bruta que se desculpa com as insónias para me fazer pensar em ti e reviver-te.
Podíamos ter sido um acidente se tivéssemos andado e conduzido em contra-mão. Não andámos nem conduzimos. Eu e tu voámos. E continuamos a voar em todas as vezes que nos lembramos um do outro e nos tocamos pela memória madrugada dentro entre suspiros e ais neste jogo do toca e foge.
Ando quieta. Sossegada e longe. Eu tento. Tu sabes.
Estou a arrumar-me neste caos. A empacotar-te e a desejar que tudo dê certo. Que fujas ou venhas. Sem tempo nem cordas; com gestos largos.
Há sempre uma passagem secreta para dar certo. Ensina-me a chegar à tua, eu sou aprendiz de ti e abro também a minha guiando-te até lá.
Quando e se esse dia chegar, não me digas nada. Respira e suspira-me. Olha-me bem. Sente os meus olhos a carregarem-te e dá-me só a mão. Chega para que todo o corpo te acompanhe. Deixa que o tacto de cada pedaço do que és mergulhe em tudo o que tenho.
Deixemos as lutas para todos quantos ainda não travaram nenhuma. Eu e tu já enfrentámos guerras, bombas, resgates, temos calo e traquejo transformado em armadura.
Quero que os travões deixem de trabalhar. Andar a prego a fundo, com velocidade tal que se me acidentar não sobrevivo. Ultrapassar a velocidade do som. Rasgar a saudade e a mim debaixo de ti. Matar o desejo. Ir. Caminhar e repetir. Eu rendo-me. Quero que sejas tu a ensinar-me que mesmo sendo eu como o vento, me podes prender ao desejo.
Põe o pé no acelerador e volta ontem. Põe-te à frente. Repete-nos. Dança esta música que só chega aos nossos ouvidos. Tira a alma do abrigo e concha em que hiberna. Rende-te como eu me rendi, sem medos. A vida não é feita para o monstro do medo que faz recuar. Destrava os beijos que tens amarrados com arames e solidão.
Mergulha em mim e eu mergulho em ti. Sem entender ou perceber. Vivermo-nos é suficiente. Havemos de dar certo, seja lá o que isso for.
Ando em arrumações de mim mesma. Descobri que entre tantas peças soltas e perdidas que tenho, me falta uma. Podes ser tu. E se formos nós a peça solta da passagem secreta um do outro é só isso. É deliciosamente isso.