Paranóias!!!

"Quem sabe quando voltar, tiro a maquilhagem e dispo-me, dispo todos estes disfarces antes que esqueça quem sou realmente. Ou apenas me limite a jogar novamente o mesmo jogo que todas as madrugadas se repete, prolongando-se até ao nascer do sol, vou deixar que as suas mãos se percam na minha pele mais uma vez, e vamos terminar exaustos num canto qualquer da casa."

Sei que neste momento ele deve estar a perguntar-se onde estou. Sei que as lágrimas queimam-lhe as faces morenas. E naquelas veias percorrem sentimentos que ele já nem compreende. Tanto amor, tanta raiva. Tanta contradição.

Deambula pela casa e pára em cada porta a olhar o vazio. Ele está vazio. Ele perdeu-me. E o pior, ele sabe disso há muito tempo, e não se conforma.

Vai sentar-se no meu lado da cama, e vai-se perder no meu cheiro impregnado na blusa cinza. Cinza. É a sua cor preferida e a cor da sua vida agora.

Talvez abra um vinho e se embriague enquanto dança no meio de todas as lembranças felizes que lhe restam do nosso amor morto. E talvez adormeça com o meu retrato na mão ou então fique a olhar o relógio à espera de me ver chegar. O tempo vai tiquetaquear o mais lento que for capaz apenas para angustiá-lo mais e mais.

Provavelmente não conseguirá fechar os olhos. Bebeu na esperança de me esquecer e agora que não se encontra sóbrio eu continuo a assombrá-lo.

Sei que neste momento está a desesperar, a ponderar estourar o cérebro com o calibre 38 que guarda no cofre. Está a remoer-se de vontade de pegar nas minhas roupas e fazer uma fogueira no quintal, e a desejar que assim como elas também eu arda no fogo da sua vingança mórbida.

Mas ele não pode. Ele não consegue. Não que ele seja fraco, pelo contrário, sempre foi forte e corajoso e enfrentou as adversidades da vida com valentia – algo que sempre lhe admirei – mas ele ama-me, e por vezes alguns amores levam-nos à ruína. Parece que este foi o caso.

Às vezes acredito piamente que a nossa vida foi pintada por Da Vinci pois tal como a Monalisa perdemos todo o encanto e todos os sorrisos.

As nossas conversas resumem-se a bom dia, boa noite, vou sair, nem nos olhos nos olhámos mais. Não sei qual de nós mente melhor. Eu quando finjo um amor que já não sinto, ou ele quando finge acreditar no amor que finjo lhe dar?

Já tivemos tanto e hoje não existe mais nada. Nenhum de nós sabe o motivo que matou o que sentíamos, foi tão verdadeiro, tão puro, tão forte. Nenhum de nós sabe o motivo que nos faz continuar a persistir nesta mentira. A alimentar algo que não poderá voltar à vida.

Sei que neste momento estou a dar voltas pela sua mente débil – débil pelas lutas que temos tido todos os dias. Lutas essas às quais somos incapazes de por termo.

Quem sabe quando voltar, tiro a maquilhagem e dispo-me, dispo todos estes disfarces antes que esqueça quem sou realmente. Ou apenas me limite a jogar novamente o mesmo jogo que todas as madrugadas se repete, prolongando-se até ao nascer do sol, vou deixar que as suas mãos se percam na minha pele mais uma vez, e vamos terminar exaustos num canto qualquer da casa.

No fim de tudo, vou pontapear o peito dele. Vou deixar que as suas paranóias cresçam.
E ele vai perguntar para onde foi o nosso amor, talvez lhe minta aos ouvidos que o nosso amor foi-se emaranhar nos lençóis de outro no dia em que estive ausente apenas para o perturbar e vou sorrir enquanto o seu coração sangra e as suas mãos másculas e calejadas se enrolam no meu pescoço numa tentativa louca de acabar comigo.

Meu Deus qual de nós o mais louco?

Desta vez será ele a magoar-me. Não me importo. Afinal o traje faz o palhaço e esta é a simples anatomia da vida.

Ambos sabemos que amanha o dia será exatamente igual, mas ambos permanecemos aqui, com este amor doente, com estas paranóias, mas juntos, e porquê? Nunca saberemos.

PORLetícia Brito
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