Para ti, pai.

Olá papá, como estás?

Não sei bem como me dirigir a ti, por um lado tenho medo que chores e por outro lado tenho medo de chorar. Sim, eu sei que és um Homem daqueles que impõem respeito, mas esse coração derrete-se comigo, não derrete?

Tenho saudades tuas e às vezes não sei bem como te dizer o que sinto. Na verdade, nunca soube. Existe sempre uma fase na vida das raparigas em que elas se ligam aos pais de uma forma incompreensível, mas é tão rápida que só é perceptível durante breves momentos, depois disso os laços congelam no silêncio. Sentes isso?

Quantas palavras guardas em ti, que ainda não me disseste? Algumas delas talvez te façam chorar e outras talvez me façam chorar a mim. É por isso que não as dizes, não é papá?

Somos rochas. Rochedos, talvez. Diz-me, quando é que nos obrigaram a ser assim? A guardar os sentimentos para nós e a ser fortes, por nós e pelos outros? Diz-me, quando é que as rochas podem quebrar?

Tenho saudades tuas, e isso faz-me chorar. Não tenho saudades por estar longe de casa, nem tenho saudades por não te ver todos os dias, tenho saudades desde sempre, porque não me lembro da última vez em que pude ser só uma menina, e não um rochedo.

Sabes papá, quando te abraçava e chorava, quando não precisava de dizer nada para que entendesses o que ia na minha alma, eu sentia vergonha, por ter quebrado à tua frente. As rochas não quebram.

Eu sei que talvez não seja aquilo que esperavas, não sei se sou uma boa filha, não sei se fui uma boa estudante, nem sei se estou no caminho certo para ti.

Mas tentei, eu tentei sempre dar o meu melhor para que fosse a melhor, para ti e por ti. Nunca te quis desiludir, e talvez esse sentimento ainda me assombre todos os dias: não ser o suficiente para ti.

Quando comecei a juntar as palavras para construir este texto, a vida estava diferente, sabes? Hoje a nossa vida está mais vazia. Vai ficar para sempre mais vazia. Talvez por isso me dirija a ti hoje com uma outra intenção.

No meio de tanta dor e sofrimento, tu és o rochedo que me segura a mim e a todos os que te rodeiam. Diz-me, como o fazes?

Perdoa-me pai, por não conseguir trazer-te de novo o brilho ao teu olhar. Perdoa-me não te conseguir devolver o sorriso sincero aos teus lábios. Perdoa-me se não fiz tudo o que devia e podia, porque agora nada há a fazer.

Tentei segurar as peças que se partiam dentro de mim naquele dia, ainda hoje sinto as peças soltas no meu corpo, não sei se algum dia as conseguirei juntar.

Amo-te, com todas as forças e as certezas do mundo. Hoje, mais que nunca, queria ser forte por mim e por ti. Mas não consigo.

Queria que o tempo voltasse atrás, ou que pelo menos parasse por uns segundos, queria que a vida nos desse tudo aquilo que nos tirou e queria acima de tudo, que a vida te desse tudo o que mereces. A verdade é que não mereceste a tragédia que te foi dada, ninguém merecia, muito menos tu.

Queria poder abraçar-te com força e deixar-te chorar, queria que as tuas lágrimas sarassem a tua alma e que cosessem o teu coração despedaçado, queria que a vida te sorrisse e te permitisse um último abraço e um último beijo.

És um homem forte papá, mas até os mais fortes quebram e tu tens o direito de quebrar também. Consigo ver a escuridão que assombra o teu olhar, consigo ver a força que fazes para sorrir e para cuidar de nós agora, consigo ver o sofrimento e a tristeza na tua alma e isso dá cabo de mim meu pai.

Sabes, eu pedi-lhe que ela olhasse por ti lá em cima e peço-lhe todos os dias que se lembre de te beijar e de te lembrar como és o “rico filho” dela. Peço-lhe todos os dias que te guie e que te abrace de manhã, que te afague os cabelos brancos e que te lembre de como te ama.

Sê forte papá, por ti, por ela e por nós.


PELA WEB

Loading...