Para ti híbrido…

Existe sempre aquele ser híbrido na vida de uma mulher, o tal que é fisicamente parecido com um homem mas que tem tudo de bebé de colo. Aquele que usa palavras feias e manda uns socos nas paredes quando é contrariado, que colecciona meninas bonitas como um menino pequeno colecciona carrinhos. Daquele tipo que se vangloriam da sua beleza e das suas conquistas mas que no fundo não têm nada. Espécie de homem que de dia se exibe confiante mas que à noite pede colo e quer dormir agarradinho e de conchinha nos braços de uma mulher a sério. Aquele ser egoísta que quer tudo e exige tudo mas que no fundo nem sabe o que quer e não nada dá. Bicho estranho esse…

Eu gosto, admito. Costumam ser fofinhos, bonitinhos, são desafiantes, intrigam-me e são peritos em cativar mulheres inteligentes e bem resolvidas. Achei que ele era especial e só por isso foi digno da minha atenção. É daquele tipo de pessoas que eu sei que devo fugir mas que não consigo deixar para trás. Sempre vi este tipo de bicho como um mutante de tristezas, mágoas passadas, com baixa auto-estima, que um certo dia após um choque de realidade viraram um bicho amargo, doente de amor, incapaz de se apegar seja a quem for, tal é o medo de sentir alguma coisa, tal é o medo de viver. E então tentei uma aproximação ao dito ser curioso com sincero deslumbramento…

Tentei ser compreensível, tolerante, fiz tudo o que podia para chegar a ti. Não reprimi sentimentos, não poupei esforços e sim alimentei a esperança de te consertar, de te tornar o homem que com essa idade já devias ser. Desejei para ti que voltasses a ser consciente e que amadurecesses o teu lado de homem para que assim conseguisses ser finalmente feliz e fazeres-me feliz. Fingi que não ouvia os teus insultos e ofensas, ignorei as tuas birras de menino, esperei pacientemente que dissesses as primeiras palavras que um homem crescido diz quando ama uma mulher, incentivei que partilhasses o que sentias, que saísses da tua zona de conforto e te comportasses como o homem que eu pensei que conseguias ser. Permiti que entrasses na minha vida e que conheces o melhor de mim, amei-te, reconfortei-te, dei-te o colo que me pediste mas tu nem deixaste que eu chegasse perto de te conhecer. Não te desejo mal algum mas para mim já chega, cansei, deixaste de ser interessante porque faça eu o que fizer, tu não aprendes. Estou agora a desistir de ti porque todo o tempo que me dediquei a ti foi tempo perdido.

Já não mereces nada de mim nem te devo coisa alguma porque eu tentei-te e tentei muito, desejei e desejei-te muito. Nunca me aproximei de ti com intenção de despertar em ti sentimentos que depois eu não os quisesse para mim, nem tão pouco não quisesse corresponder. Sempre fui honesta contigo e disse-te que amar pode provocar dor e danos colaterais no nosso coração e na nossa mente, mudar mesmo o rumo da nossa vida. Sempre te disse que ser homem exige muito de um ser e nem todos conseguem chegar a esse nível. Exige que esse ser responda pelo que diz e pelo que faz, que deixe o orgulho próprio em detrimento da sua felicidade e da felicidade alheia. Disse ou não disse híbrido?! Disse que podias ter colo mas que também tinhas de dar colo. Que ias receber todo o meu amor mas que me tinhas de dar o teu também? Disse sim! Não te disse que era fácil, só que ia valer a pena e vale mesmo acredita, um dia que consigas amar e seres amado será o momento da tua vida. Ouve o que te digo porque é verdade!

Mas para mim já chega de ti, é tão cansativo, tão intenso ter de lutar contra a tua vontade de não queres sentir, de te tentar conter quando te assustas comigo. O que é preciso para eu me deixar consumir pela frustração de não conseguir fazer de ti um homem e deixar-te para trás?! Podia ter-te dado tudo e só tinhas de te sentires agradecido por eu ter entrado na tua vida porque eu não me apaixonei pelo teu lado bonitinho mas pelo teu lado de menino assustado com muito potencial para ser homem, o meu homem. Eu queria mesmo conhecer-te, amar-te, fazer de ti um homem feliz e construir contigo a família de amor que sempre desejaste ter. És um ingrato híbrido.

Que tranquilidade desconcertante é a tua, às vezes invejo a tua ignorância. Às vezes até gostava de não saber o que é sofrer por amor ou de não ter força para lutar por aquilo em que acredito. Mas sei o que é sentir e sofro mas não paro de lutar porque a dormência de não sentir não traz a compensação de saber o que é ser feliz no final de tanta dor. Eu precisava que validasses o teu amor por mim com demonstrações e palavras, com muitos mimos e “amo-tes”, mas para os metade-homem metade-menino isso não é natural. Só te peço uma coisa, que me respeites, que não me magoes ainda mais porque para tudo existe um limite de bom senso e de sacrifício. Acredito que haja limite para amar e para sofrer porque caso não houvesse a vida humana seria só tristeza e desespero e para isso mais valia tornarmo-nos todos híbridos e deixarmos de sentir, deixarmos de nos amar.

PORSusana Correia
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