Os Sonhos têm cura

A vida escapa-me por entre os dedos. Amanhã acordo e, é NATAL!

Não sei se sentes o mesmo, e se não sentes, por favor, conta-me como se faz. Eu sinto que já não sei viver de outro jeito… Hoje, em Portugal é ferido (depois poderei falar sobre ele), e por isso, o despertador nem chegou a tocar e deu-me uma crise existencial. Como não tocou? Como não fui acordada com um monte de alarmes cheios de notas: Ir à aula x, estudar para o exame oral y, ver como está a matrícula, ligar à mãe, ir ter com a amiga beber café e falar de um monte de assuntos pendentes, passar nas finanças, ligar ao senhorio e, até um ver se chove amanhã… Depois acordo e respiro fundo, e antes de sair da cama, ainda vou à agenda ver os eventos a que me propôs ir… Espera… e quando posso ir visitar a família?

É Outubro e deu-me a sensação que passei mais um ano sozinha, sozinha com as minhas infinitas tarefas…Deu-me a sensação de que estou a viver o mesmo de sempre e que vou chegar ao fim do ano cheia de arrependimentos e frustrações. Apercebi-me que a minha lista de sonhos, de planos para o Futuro, de risos e conquistas está meia que riscada, ainda não a consegui cumprir. Nem, mesmo aquele básico desejo: Vou treinar, nem que seja cinco minutos, por dia, para ter um corpo de modelo.

Dou por mim a sobrecarregar-me de tarefas, sonhos e deveres, que deito-me com a sensação que até no básico falhei, E de repente, passam doze meses e é NATAL. Sinto-me, exactamente igual ao ano passado, com a agravante que batalhei tanto para, hoje, ser mais e melhor. Todos os dias, as horas roubam-me a autonomia e a liberdade, que hoje, feriado, os portugueses festejam… Olhamos no relógio e já são onze, de repente o ponteiro marca as três da tarde. Minutos depois, já é hora de Jantar. Meu Deus, não fiz nada ainda, e tenho tanta coisa rabiscada no bloco de notas!!

Dou por mim a desejar que o dia tenha mais horas, os meses sejam maiores, que os anos desacelerem que eu preciso tanto de tempo! Até que entendes que isso não acontece, e depois da negação, da apatia, da raiva, entendes que se é assim, é porque não precisas de mais horas, dias, meses ou anos para seres quem és. Seres um ser livre. Mais horas, dias, meses, anos para quê? Seres uma escrava do Tempo, perderes a Liberdade, que tanto custou a conquistar, Liberdade que amas?! Por esta altura, dou por mim, de olhos fechados, só a sentir o vento que imagino correr, por entre os cobertores… Imaginado, como Pessoa tem razão: “(…) Só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido”.

Chegamos a uma altura em que precisamos de ser realista, até quando sonhamos. E, talvez, o que esteja errado mesmo seja o tamanho do sonho. Fazemos uma lista interminável de objectivos e colocamos na cabeça que só assim finalmente seremos felizes, realizados, melhores e faremos felizes quem nos quer tanto bem. Só assim recompensamos a horas que perdemos a tentar ser melhor todos os dias, as horas que a nossa família perde ou perdeu a trabalhar para nos tornar o que somos hoje. As horas intermináveis de colinho da mamã, sempre com uma palavra de incentivo. Desligava assim e deixava que ela guiasse a minha vida, até eu voltar a assumir o controlo dela. E aí sim, voltavam as listas…

Mas será que preciso assim tanto delas? Serei assim tão inferior, infeliz? Ou sou só o fruto de uma sociedade capitalista, estereotipada, e cheia de pessoas capazes, bem sucedidas, ricas, importantes que nos levam a querer que basta trabalhar e sonhar?!! Pois, acho que no fundo somos todos uns não conformados,queremos ser sempre mais, não é mau, mas um país deprimido é um país doente. E sim, também vivemos numa sociedade de espelhos, queremos espelhar sempre mais do que somos, e levamos com reflexos de gente que é menos do que se mostra. Queremos ser iguais aos melhores e isso não está errado, só que temos de estabelecer limites. Até onde poderei ir, sem colocar em causa aquilo que é a minha saúde mental? Até onde poderei ir sem colocar em causa aquilo que são os meus valores fundamentais? Até onde poderei ir, sem deixar de fruir o momento?

Parei de ler as revistas, de me tentar espelhar em modelos, parei de sonhar em ser a pessoa x, parei de acreditar no horóscopo, na sorte ou no azar. Passei a viver como sou e como as coisas são. Nada surge do acaso, mas nada será maior do que as oportunidades que te darão ou até daquelas que conseguirás criar para ti mesmo. Nessa equação, sempre houve espaço para um pouco de Fé, mas não era a Fé normal, era a Fé na humanidade, fé em que juntos tentaremos ser mais honestos connosco e com os outros.

Agora que as folhas das árvores estão a cair e o meu cabelo parece não ter parado de cair, é hora de vestir outra roupa, outra pele… Deixar de fazer planos porque não estavam escritos, deixar de acrescentar sonhos gigantes: um emprego melhor, comprar uma mansão, ter um carro desportivo, passar em todos os exames, acabar logo tudo e viajar…Um corpo de sonho… E pegar naquilo que tenho, agora, e ser a melhor, deixar que a vida corra e a lista se vá riscando. É tempo de convidar aquela pessoa para jantar,vestir um “look” casual; uma sessão de cinema até tarde com as amigas; rir porque alguém riu; sentir o prazer que é acordar sem o despertador, deixar guiar o tempo pela luz solar…Achar que estar viva e poder escrever isto para vocês já é um sonho tornado realidade. Acordar e poder ver que quem amo está feliz e saudável, aprender que é uma dádiva.
É tempo de tirar os sapatos e sentir o chão!

Se concordas, partilha. Partilha com quem mais precisa. A depressão tem cura, mas o tempo perde-se, definitivamente. Juntos, somos mais, juntos, somos melhores!