Os lugares também morrem connosco

Os lugares também morrem connosco

Haverá sempre lugares que marcam a nossa infância, lugares onde, quando lá voltamos, há uma criança em nós que renasce, lugares onde nada foi esquecido. Travessa São Sebastião foi a rua onde cresci, uma rua estreita, velha, na cidade de Pombal. Vivia em casa do meu avô materno, com ele e com a minha mãe. Não tinha muitos amigos da minha idade, apenas um – o «João gago» que batia três vezes o pé no chão quando gaguejava -, com quem passava tardes a ver televisão ou a jogar à bola. Jogávamos um contra o outro ou, quando o irmão dele aparecia, um de nós ficava à baliza. Quando o sol se punha, eu ia para casa, continuava a ver televisão ou fazia os trabalhos de casa. Todos os meus dias começavam e acabavam ali, no mesmo sítio, sem que desse conta que aqueles seriam os melhores anos da minha vida. Aos onze anos mudei-me para a terra natal da minha avó, uma aldeia no concelho. Contam-me que ela – a minha avó – era uma pessoa com um bom coração – morreu com cancro da mama aos quarenta e um anos -, eu nunca a conheci.

Hoje, quando regresso àquela rua, sinto que a solidão tomou conta daquela calçada. Já não há quem jogue à bola tardes a fio, já morreu o cão que me fazia correr o mais que pudesse com o balde do lixo na mão, já não existem as crianças que mandavam pedras para o pátio abandonado do outro lado da rua. Hoje aquela rua apenas conhece os passos vagarosos do meu avô. E é triste sentir que nada volta, que os lugares também morrem connosco.

Talvez um dia roube uma pedra daquela calçada e a guarde, polida, numa estante. Quero trazer um pouco da minha infância comigo. E quando morrer, quero que aquele pedaço da rua assista à minha morte. Quero, contudo, que a criança que fui nunca morra. Que aquele pedaço insignificante de granito conte, a quem olhar para ele, como fui feliz, quando não sabia que o era.


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