Oh Loucura…

Doce Loucura dá-me mais de ti. A rotina não se dá contigo bem sei. Este poder de responsabilidade, este amor devoto e fiel aborrece-te.
Sinto a tua falta.

Da tua música francesa a ecoar-me no ouvido e a levar-me para aqueles anos, aqueles em que fui louca. Inconsequente. Leviana.
Este comportamento está-me a matar. Sóbria que dou nojo. Por isso me foges.
Ne me quittes pas. Ne me quittes pas. Ne me quittes pas.

Sabes, já não tenho dúvidas quanto a quem amo. Amo um. Apenas um. Sim, eu sei. Preferias que amasse todos e nenhum isolado. Mas neste amor estás presente. Sinto-te quando fervo por dentro sem motivo. Quando deixo de ser eu para o servir. Quando o amo incondicionalmente e sem dúvida. Mas sinto-te, principalmente quando me imagino casar. Ter filhos. Ficar junto velhinho. Oh Loucura! Bem sei que isto é teu. Só os loucos amam assim. Só os loucos sentem o cheiro e tornam-se animais famintos. Só os loucos adoptam crias alheias como sendo suas. Só os loucos se deixam magoar e sorriem.
Acho que tu também estás mais madura, mais sábia, mais forte.

A minha memória… pouco resta dela. Ou melhor, pouco resta do passado. Eu, que sempre vivi na linha ténue entre ele e o presente, encontro-me agora naquele futuro já imaginado. Eu, que tantos erros cometi, sou agora exemplo imaculado para alguém.

Sou uma louca que criou uma vida tradicional perfeita. Irónico.

Eu que sempre falei com Deus e com o Diabo. Que lhes inventei uma sepultura. Eu que sempre soube o que era sex* e adorava-o. Eu que amava ler aos cinco anos, que ouvia música clássica do meu avô escondido, que invejava as bonecas de porcelana da minha avó. Eu que lia sobre espíritos e suicídios, métodos de tortura e religião.
Oh Loucura, sinto que nos estamos a afastar.
Crescer é isto?

PORPatrícia Bello
Partilhar é cuidar!

PELA WEB

Loading...