O sopro…

O tal do amor.

Ela estava farta de dar voltas e reviravoltas por dentro.

Farta de se tentar virar do avesso e de perceber se as nódoas estavam do lado de dentro ou do lado de fora.

Estava farta de pensar nas noites em que se embrulhava nele e em que tudo de repente se tornava mais simples só por causa disso. Disso e do sentido que faziam ali, os dois. As coisas deixavam de ter as mesmas proporções. Assumiam outras, diferentes, as que deveriam ter. No colo as coisas eram mais simples. Sempre tinham sido, pelo menos para ela.

Durante muito tempo tinham estado ali os dois. Porque sim. Porque era o que sentiam e precisavam de sentir. Se. Um no outro como se não fossem dois.

Como se não precisassem de se sentir sozinhos mais vez nenhuma. Parecia que tinha chegado o momento. Finalmente iam poder abandonar-se. Ali, no colo.

E os sorrisos foram muitos, dos bons, daqueles inteiros, dos outros em gomos.

E a cumplicidade existiu. No toque, na partilha, no sossego e na paz de sentirem que podiam existir exactamente como eram. E amar-se assim. Apesar disso e por causa disso.

Depois por algum motivo a história foi-se pintando de outras cores.

Deixaram de ter os corações alinhados nas batidas. Não deixaram de se amar. Mas deixaram de o sentir ao mesmo tempo, com a mesma intensidade.

Umas vezes batia mais um, outras o outro e ao longo dos dias foram se esquecendo que isso não era uma falha.  Era o tal do sopro do coração que nem sempre tem que ser em uníssono.

Sem querer ela deixou que ele se perdesse dele para estar ao pé dela.

Não conseguiu mesmo que lho tenha gritado, e talvez por causa disso, dizer-lhe que não era preciso esforçar-se. Que não era preciso fazer nada.

Gostava dele exatamente como o tinha encontrado. Estava pronta, finalmente, para o amar por inteiro. Não era preciso ele ser de uma ou de outra maneira.

Era aquilo que ali estava, exactamente aquela pessoa que ela queria, que ela sentia e que ela precisava.

Ela gostava de o amar baixinho, devagarinho, debaixo de um edredon a ver um filme qualquer ou naquela mão dada no meio das ruínas de um castelo. Ela não gostava de o amar em voz alta. Ela gostava da paz que sentia ao chegar ao pé dele. Aquela paz que se sente quando se desliga a chave do carro ao fim de um dia de trabalho. Ali, no colo um do outro era um mundo diferente. Foi durante muito tempo. E ela tinha saudades de se sentir guardada e protegida, forte e pequena no abraço dele. Nos braços dele. No colo.

O tal sopro do coração. Sim, ele era o tal.


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