O que roubei de ti e de mim!

Quando tens tudo e parece que não tens nada. A multidão à tua volta é só um mar onde te afogas para te perderes de ti.

Quando te das conta que aquele amor que te deram era, nada mais, nada menos, que uma taça cheia de vidros. Aquela taça que tu bebeste e tornaste a beber. E agora os vidros cortam-te aos poucos, em cada passo que dás.

Guardaste tudo, até aquilo que não era suposto. Os beijos, os abraços, as idas ao supermercado. As bolachas favoritas que lhe levavas à cama quando ele tinha bebido demais na noite anterior àquela manhã.

Dei tudo o que tinha e o que não tinha. Vivi-o. Roubei-lhe tempo. Raptei-o de outros. E no final acabei por ficar aqui sozinha. Não me importa a solidão. Importa-me apenas aquilo que perdi de mim. Aquilo que acabou por ficar contigo. Podes devolver-(me)?

Mil vezes te disse, em silêncio, que te amava. Mil vezes te guardei. Mil vezes sozinha.

Se soubesses, apenas um décimo. Apenas num segundo. Se ele soubesse como o amor mata, como ele destrói. Se ele se desse. Se ele se tivesse dado.

Preferiu conhecer todos os recantos, vasculhar-me por dentro. E esqueceu-se de me deixar conhece-lo. Fechou-se em copas. Guardou aquele jogo só para ele. Mas olha, não tem mal.

Aprendi contigo a não me dar mais. Manter-me quieta e sossegada a quem me quer. O problema é que a escolha é variada e eu não quero ninguém. Não quero ser de mais ninguém. A minha pele tornou-se tua. Os meus suspiros e os meus choros. Os choros calados que tu nunca ouviste.

Agora só quero ficar aqui, à espera. À espera que isto tudo passe. Entregando-me às noites passadas em branco, dando-me a escolhas vãs. Equipando o coração com novas armas.

Penar a minha alma devagarinho, sacrificando-me com o peso de estar preso a alguém.

Raízes que me aqueceram, raízes que agora me magoam como quem fica dentro delas, sendo puxado, cada vez mais para dentro de algo que não sei descrever. Mas que me deformam. Deformam-me de tal forma, de tal modo, que só sei sentir que outras mãos não são as tuas mãos. Que outro cheiro não é o teu cheiro. E hoje percebo que é o medo que nos faz ficar sós. E outro não é outro tu.

Outra sou eu.

PORInês de Castro
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